Por quê o sabor doce é tão atrativo?

Você já sentiu aquela vontade louca de comer um doce? Quem nunca?

Imagino que sim. Os chamados “formiguinhas” são as pessoas que relatam esta necessidade de doces e isto pode variar em horários e em quantidades deste alimento. Neste ponto que mora o perigo, porque ter uma boa relação com o doce é conseguir ter um controle sobre o que come, quando come e a quantidade que ingere num único horário. O açúcar não é somente o açúcar branco adicionado no chá ou café. Ele pode estar mascarado em vários alimentos: chocolate, bolos, doce de amendoim, pães, bolachas, tortas, balas, gomas, etc.

O doce é amplamente considerado como de grande qualidade gustativa básica ou primária. Gostar de substâncias com sabor doce é inato, embora as experiências pós-natais possam moldar as respostas. Nesta esteira de pensamento, é proibido oferecer doces às crianças como menos de 3 anos de idade. Na verdade, quanto mais retardar o consumo de doces, melhor será. As crianças acabam modificando a microbiota intestinal muito precocemente quando recebem alimentos doces advindos de carboidratos refinados e de alimentos ultraprocessados antes dos 3 anos de idade. A alimentação nos primeiros 1000 dias torna-se decisiva para a saúde intestinal da criança.

O poder do sabor doce para induzir o consumo e motivar o comportamento é profundo, sugerindo a importância desse sentido para muitas espécies. A maioria dos pesquisadores presume que a capacidade de identificar moléculas doces através do sentido do paladar evoluiu para permitir que os organismos detectem fontes de glicose prontamente disponível nas plantas.

Quando você come açúcar seu pâncreas secreta insulina, o que baixa rapidamente a glicemia e aí seu corpo entra num círculo vicioso, querendo mais açúcar para reequilibrar seu corpo.

Os carboidratos são classificados de forma simplificada em complexos e simples. Os açúcares complexos são os que possuem uma liberação mais lenta no seu organismo e são os pães, massas, arroz. O ideal é que você opte pelos integrais para melhorar sua saciedade e diminuir a absorção de açúcar. Já os açúcares simples são liberados rapidamente como doces, balas, chocolates. Estes devem ter o consumo controlado para evitar um grande prejuízo no seu controle calórico. Caso seu objetivo seja perder peso no tratamento clínico tradicional ou através de uma cirurgia bariátrica, evite ao máximo estes alimentos. Primeiro devido ao seu alto teor calórico e segundo, porque em se tratando de cirurgia bariátrica, você pode desencadear a síndrome de “dumping” com sintomas muito desagradáveis como náuseas, vômitos, diarreia, rubor, taquicardia e até uma sensação de morte.

Pacientes após cirurgia bariátrica ou de tratamento clínico para perda de peso estão super representados no tratamento de abuso de substâncias, constituindo cerca de 3% das internações; cerca de 2/3 desses pacientes negam o uso problemático de substâncias antes da cirurgia por exemplo. É importante avançar nossa compreensão no surgimento de transtornos por uso de substâncias. Pesquisas crescentes com modelos animais e humanos sugerem que o “vício em comida” pode desempenhar um papel em certas formas de obesidade, com risco particular conferido por alimentos ricos em açúcar, mas baixos em gordura. Portanto, a hipótese de que os pacientes que relataram problemas antes da cirurgia com alimentos com alto teor de açúcar / baixo teor de gordura e aqueles com alto índice glicêmico (IG) seriam os que mais provavelmente evidenciam novos distúrbios neurológicos após a cirurgia. Esses achados fornecem evidências da possibilidade de transferência de dependência entre certos pacientes bariátricos.

Alguns fatores podem contribuir para este comportamento:
* não fracionar as refeições: permanecer muito tempo em jejum, pode causar hipoglicemia e seu corpo pode achar que está precisando de açúcar.
* falta de sono: será que seu sono está reparador? Analise se você consegue dormir bem pelo menos 7 a 8 horas por dia! Muitas pessoas que mudam seu turno de trabalho podem aumentar até 10Kg em um ano devido à mudança no ritmo de sono e também das opções alimentares (com muito açúcar!) para manter-se acordado.
* falta de nutrientes: o nutricionista também pode pensar em falta de magnésio e cromo na sua alimentação.
* estilo de vida saudável: exercícios físicos frequentes que possam trazer a mesma sensação de bem estar que os doces promovem.

Referências Bibliográficas:
1. Westwater ML, Fletcher PC, Ziauddeen H. Sugar addiction: the state of the science. Eur J Nutr. 2016 Nov;55(Suppl 2):55-69.
2. Markus CR, Rogers PJ, Brouns F, Schepers R. Eating dependence and weight gain; no human evidence for a ‘sugar-addiction’ model of overweight. Appetite. 2017 Jul 1;114:64-72.
3. Hsu JS, Wang PW, Ko CH, Hsieh TJ, Chen CY, Yen JY. Brain correlates of response inhibition and error processing in females with obesity and sweet food addiction: A functional magnetic imaging study. Obes Res Clin Pract. 2017 Nov-Dec;11(6):677-686.

Niacina ou Nicotinamida ou Vitamina B3

A niacina é uma vitamina do complexo B, solúvel em água que participa de várias reações orgânicas. Compreende as formas amida e ácido da vitamina: a nicotinamida e o ácido nicotínico.
As funções metabólicas da niacina estão relacionadas a seu papel como integrante das coenzimas nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD) e NADP, os quais funcionam como carreadoras de elétrons nas reações de oxidorredução no metabolismo oxidativo. O triptofano pode auxiliar na síntese da niacina. É necessário 60mg de triptofano para sintetizar 1mg de niacina. Participa de inúmeras reações bioquímicas, tem funções terapêuticas e também cosméticas. Você pode encontrá-la em uma grande variedade de alimentos e também como suplemento.

A deficiência de niacina (pelagra) pode gerar os 3 Ds graves: dermatite, diarreia e demência, sendo as principais causas a baixa ingestão de niacina, bem como a de triptofano. Sua deficiência acarreta a pelagra, cujos sintomas consistem em alterações cutâneas, digestivas e neurológicas. Por outro lado, altas doses podem estar associadas a efeitos colaterais como enrijecimento e rubor da pele, prurido, urticária, vômitos, diarreia, timpanismo, constipação, hiperuricemia, hiperglicemia e anomalias da função hepática e ocular.

Suas fontes estão na forma de carboidratos (niacitinas) e peptídeos (niacinogênios), ambos conhecidos como niactinas, as quais possuem baixa biodisponibilidade. Nos alimentos de origem animal, está complexada com dinucleotídeos na forma de NADH e NADPH, os quais possuem alta biodisponbilidade. Fontes: carnes, aves, peixes, fígado, leite, cereais, leguminosas e oleaginosas.

De acordo com a DRIS (Dietary Reference Intakes), a recomendação para o consumo de niacina é de 16 mg/dia para homens adultos e de 14 mg/dia para mulheres adultas.

Na tabela abaixo encontramos alguns alimentos e suas respectivas quantidades de niacina por 100g do alimento.

Teor de niacina de alguns alimentos:

Alimento (100g) Niacina (mg)
arroz branco 1,83
amendoim 12,07
atum grelhado 10,54
aveia 0,96
feijão 0,58
fígado 17,47
filé mignon 3,41
peito de frango 13,21
leite 0,11
lentilha 1,06

FONTE: Tabela de Composição Química dos Alimentos da UNIFESP, 2001.

Em certos alimentos, como o trigo e o milho, a niacina pode estar ligada a macromoléculas, impedindo sua disponibilidade. Perdas da vitamina também podem ocorrer durante o preparo dos alimentos por hidrólise e dissolução na água.

Referências Bibliográficas:

COZZOLINO, SMF E COMINETTI C. Bases Bioquímicas e Fisiológicas da Nutrição. Manole. 2013.

ALMEIDA, L.C; CARDOSO, M.A. Tiamina, Riboflavina e niacina. In: Cardoso MA, coordenadora. Nutrição e metabolismo: nutrição humana. Rio de Janeiro: Guanabara.

SANTOS,R.D. Farmacologia da niacina ou ácido nicotínico. Arquivo Brasileiro de Cardiologia, v.85, n.5, p.17-9, 2005.

Confinamento, distanciamento social, ansiedade e ingestão alimentar

Em 12 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a humanidade estava diante de uma pandemia pela Sars – Covid 19, uma doença nova, altamente contagiosa e sem nenhum tratamento efetivo ou vacina que pudesse acalmar a população mundial. O pânico foi geral! Foi determinado o distanciamento social como forma de prevenção e o que se pensava que em pouco tempo poderia ser solucionado, tomou dimensões sem precedentes.

Quem pôde foi encaminhado para o trabalho domiciliar, as escolas foram fechadas e milhões de crianças ficaram em casa em home schooling. As crianças ainda com a grande tendência de serem as maiores vetoras da doença sendo assintomáticas tiveram todas as suas atividades suspensas. A princípio os idosos foram considerados o maior fator de risco, associados com comorbidades como pressão alta, diabetes, etc e os obesos ficaram na berlinda como fortes candidatos a terem um pior prognóstico.

Sempre que uma doença nova chega e de repente como esta, estudos técnicos científicos devem ser feitos para determinar etiologia, epidemiologia, e tantas nuances que envolvem o que é, como se transmite e como se faz o tratamento. Até hoje 4/7/2020 já se têm inúmeros projetos adiantados sobre alguns medicamentos, uma vacina vinda de Oxford, uma vacina chinesa para ser testada pelo Instituto Butantã e Fundações como a Lemann que estão investindo pesado em achar uma solução rápida e efetiva para toda a população.

Enquanto isso, ainda temos muitos negacionistas da pandemia, além de uma guerra (totalmente desnecessária) política nos países que não souberam conduzir com serenidade e respeito à ciência o seu país e sua população que se vê desgovernada como é o caso do Brasil. Mas isto é outro assunto….

Como vários segmentos econômicos tiveram que fechar suas portas, o número de desempregados ficou alarmante. Dentro de casa, as pessoas que são feitas de sentimentos e emoções, estão à flor da pele. Houve um aumento considerável de agressões às mulheres, a família precisou se reestruturar rapidamente, uns precisando estudar on line, outros trabalhar ao mesmo tempo e isso se tornou uma fonte de estresse. As desigualdades sociais ficaram bem mais evidenciadas e quem tem seu computador, sua internet banda larga, sua escola ensinando à distância, dinheiro na conta para ter a geladeira cheia, é um privilegiado que nem deveria se queixar de nada.

Entretanto a ansiedade bateu à porta de todos, sem distinção de qualquer natureza. Muitos estão sobrecarregados com trabalho extra com os seus deveres de profissional, de dona (o) de casa, de professor dos filhos e ainda manter a calma e a fé de que tudo ficará bem.

Ao pensar no grupo dos chamados “privilegiados”, a ingestão alimentar se tornou um escape, um conforto. Muitos se dedicaram no tempo livre para cozinhar mais e isso foi bom, mas para aliviar as tensões, o tipo de alimento confortante normalmente é o mais calórico. Associado ao sedentarismo imposto (academias fechadas, necessidade de sair com máscaras), nem as inofensivas caminhadas se tornaram algo seguro. Além disso o sono foi perturbado com tantos acontecimentos.

Comer mais de forma ansiosa + sedentarismo + mudanças no ritmo circadiano com a alteração no sono = AUMENTO DE PESO

O que fazer diante disso?

Primeiro tentar manter a calma e uma certa rotina. NÃO SE COBRE DEMAIS!

Procurar fazer algum exercício em casa, no tapete da sala mesmo com auxílio de algum aplicativo pode ajudar. Criar um horário para isso e respeitá-lo.

Não estamos em férias, a comida deve ser a trivial e com as refeições fracionadas e em horários adequados.

Planeje sua semana para ir à feira, mercado, açougue. Saia uma vez só de casa.

Não precisa ficar escravo da cozinha. Tenha prazer em cozinhar e deixar algumas coisas pré preparadas. Por ex. feijão cozido em potes pequenos. A cada dia você tira do freezer e só tempera a seu gosto. Faça o branqueamento de verduras e (choque de água fria e quente) armazene em porções menores. Assim você terá verduras todos os dias. As folhas podem ser lavadas e colocadas em recipiente limpo na geladeira. Elas se mantém bem durante a semana. As carnes, frango, peixe ou ovos, seria melhor fazer na hora de comer se vc preferir o grelhado. Entretanto se quiser picadinho por ex você já pode deixar pronto para aquecer na hora de comer. Inclua todos os membros da família neste processo, quem não prepara a comida, pode lavar a louça, limpar o fogão, etc. Até os pequenos se sentirão úteis. Isso é um processo, precisa ser conversado antes para ninguém se estressar.

Mantenha sua imunidade em alta com o consumo regular de frutas cítricas ricas em vitamina C como laranja, ponkan, maracujá, limão, etc. Procure usar todos os dias todos os grupos alimentares (proteínas, carboidratos, vitaminas e minerais, fibras). Não existe um alimento único tão poderoso para te trazer imunidade. O importante é o conjunto de todos os grupos alimentares que você coloca no prato. Não é hora de fazer restrições alimentares severas, apenas preserve uma alimentação saudável.

Cuide da sua saúde mental. Muitos estão afastados de seus entes queridos e a tecnologia pode ajudar: ligue mais, faça vídeos (eu sei que estamos todos cansados) e tente manter os vínculos com familiares e amigos. Mantenha os idosos ocupados e solicitados. Peça para avó aquele cachecol que só ela pode e sabe fazer com carinho, leve um prato que você fez com uma receitinha nova. Pode agradar.

Lava as mãos com água e sabão, use a máscara se precisar sair (mesmo que o presidente ignorante diga que não) e siga estas recomendações abaixo que ainda foram pensadas por um ministro da saúde (agora não temos mais) que podem ser úteis:

Ainda se puder e tiver, mantenha a FÉ, estamos todos juntos nessa. Não é um problema daqui, é no mundo todo! Com força e determinação, nossos cientistas que estão incansáveis debruçados em busca de uma vacina ou de um tratamento medicamentoso efetivo vão conseguir nos ajudar. Faça a sua parte e ajude quem puder, ninguém precisa saber!!!

O segredo do sucesso após a cirurgia bariátrica – parte I

Quando você decide que o procedimento cirúrgico é uma opção e que você será beneficiado (a) pelo método, parabéns, você está no caminho certo, desde que compreenda alguns pontos bem importantes e esteja aberto a fazer concessões no seu hábito de vida diário.

Primeiro entenda que A OBESIDADE NÃO TEM CURA, MAS TEM CONTROLE! A obesidade têm tratamentos e um deles é a cirurgia, que por sinal é o melhor e mais efetivo deles, mas exige critérios de seleção do paciente bem delimitados.

As técnicas mais aplicadas como Bypass gástrico ou Sleeve Gástrico são um caminho para o controle da obesidade.

Quem se propõem a fazer um procedimento cirúrgico precisa estar muito consciente que a cirurgia vai impor limites alimentares e exigir um exercício físico muito disciplinado para obter resultados realmente eficazes. E esta mudança comportamental é para SEMPRE.

Eu como profissional, me preocupo muito com afirmações como:

– “Já tentei várias dietas. ”

– “Não quero me submeter a mais dietas.”

-” Quando estou em dieta eu como frutas e verduras.”

– “Sempre tem frutas lá em casa, mas não como por falta de hábito.”

– “Quando eu me dediquei fazendo dieta e exercício físico eu até perdi peso, mas depois desanimei e voltei a engordar.”

– “Eu nunca mantenho meu emagrecimento porque minha família come muito e eu sempre tenho que fazer dieta e nem sempre eu consigo.”

– “Detesto musculação, na verdade não suporto academia.”

– “Faço caminhadas diárias quando o tempo está bom.” (Moramos em Curitiba e temos quatro estações num único dia, resumo: este exercício físico não está funcionando direito)

– ” Não tenho disciplina para usar medicamentos, esqueço sempre.”

Primeiro ponto:

A palavra DIETA significa o hábito alimentar e NÃO uma restrição somente. Portanto NÃO é adequado alguém acreditar que fazer DIETA, é somente ter uma restrição alimentar. Esta palavra é muito difundida entre os profissionais da saúde e soa SEMPRE para o paciente com parar de comer ou comer alimentos ruins.

HÁBITO É BANHO, É ESCOVAR DENTES. Você tem coragem de sair de casa sem tomar banho ou sem escovar os dentes?

E por quê acreditar que comer frutas, verduras, alimentos integrais é fazer dieta monótona que só serve para quando você quer emagrecer. Comer frutas e verduras NÃO é ruim, é um hábito dietético que possibilita o aumento do consumo de fibras e com isso seu intestino agradece. Mas que pena que você não enxerga seu intestino. Se o visse ficaria horrorizado. Nós temos trilhões de bactérias no nosso intestino, entre boas e más bactérias. E quando não consumimos fibras de forma adequada as bactérias más fazem a festa. Neste desequilíbrio, seu peso aumenta, sua pressão arterial pode descontrolar, seu colesterol pode aumentar, você pode ter um risco maior de ter diabetes e esteatose hepática. Resumo: nutrir o intestino com fibras é bastante inteligente. E NÃO É DIETA, é simplesmente FUNDAMENTAL PARA MANTER SUA SAÚDE.

Segundo ponto:

Nosso corpo é composto de água, minerais, proteínas, gordura, músculos e ossos e precisa de exercícios físicos diários. Não tem como ignorar isso. Se você fizer a cirurgia e perder muito peso em pouco tempo e não fizer musculação acompanhada de exercícios aeróbicos, você perderá basicamente músculos e água e você ficará o chamado “falso magro”, aquele que pode engordar no primeiro doce que comer. Músculo gasta energia e gordura não. Precisamos construir nossos músculos todos os dias.

Terceiro ponto:

Após a cirurgia É OBRIGATÓRIO E PARA SEMPRE o uso de suplementos nutricionais como polivitamínico, ferro, cálcio, complexo B e whey protein. Você precisará de disciplina para dosar seus exames periodicamente e fazer consultas com a equipe que o acompanha para prevenir deficiências nutricionais como anemias carenciais, queda de cabelos, alterações em pele, unhas, ossos, memória, disposição etc.  E muitos dos suplementos são via oral. Portanto a disciplina para usar os suplementos é indiscutível.

Quarto ponto: 

Você pode ter uma expectativa de que hoje você opera e amanhã estará no peso ideal, mas não é assim. Você pode percorrer um longo caminho e ter complicações variadas como náuseas, vômitos, refluxo, síndrome de “dumping”, desidratação, diarreia, constipação, intolerância à lactose, fadiga, cansaço, esquecimento, irritabilidade (sim, alimentos líquidos te irritam por você não poder mastigar).

Quinto ponto:

Existem sim alimentos e comportamentos proibidos após a cirurgia:

  • bebida alcoólica
  • bebidas gaseificadas como água com gás, refrigerantes.
  • doces em geral
  • alimentos fritos
  • carnes gordurosas
  • ser sedentário
  • ficar beliscando o tempo todo

Sexto ponto:

E vale a pena tudo isso? Pode ter CERTEZA QUE SIM! Em 23 anos de trabalho, nunca vi um paciente sequer se arrepender depois de mostrar a si mesmo que é capaz e que pode mudar de vida. Desde um simples ato de sentar e dobrar as pernas, ter um assento confortável num avião sem ficar constrangido, ter sua saúde de volta sem pressão alta, sem diabetes, com o fígado trabalhando feliz, e sua auto estima nas alturas. Agora NUNCA deixem ninguém falar a você que optou e precisou da cirurgia como alguém que percorreu o caminho mais fácil. Só você sabe de toda a disciplina e responsabilidade que tem com o seu tratamento. E só você pode fazer isso por você mesmo, jamais delegue ou justifique não ter feito por culpa de alguém. Nós somos responsáveis por tudo o que acontece em nossas vidas.

 

 

 

 

 

 

Vegetarianismo e Cirurgia Bariátrica: Experiência Indiana

Vegetarianismo e Cirurgia Bariátrica: Experiência Indiana

A cirurgia bariátrica causa um impacto no estado nutricional dos pacientes com diminuição da ingestão alimentar, intolerância alimentar, aversões alimentares, compulsão por doces, diminuição da absorção de vitaminas, minerais e macronutrientes.

Em populações como a Índia que majoritariamente é vegetariana, sendo 75% de lactovegetarianos, 25% de ovo lactovegetariano e 1% veganos, há uma maior incidência de anemia ferropriva. Após a cirurgia bariátrica 31% dos pacientes pioram o quadro de anemia ferropriva.

As causas da anemia ferropriva são várias. O ácido gástrico converte o ferro férrico em ferroso e absorção do ferro se dá no duodeno e jejuno proximal. Com as técnicas de Bypass Gástrico e Sleeve Gástrico  este processo fica comprometido. O ferro usado precisa ser o não heme, de fontes vegetais. A recomendação de ferro para homens adultos é de 17mg/dia e 21mg/dia para mulheres. Ideal é usar as fontes de suplementação de ferro na forma fumarato ou glicinato e após a cirurgia bariátria, estas recomendações para 28 a 30mg/dia, associados de vitamina C para facilitar a absorção intestinal.

Outra deficiência muito comum é a vitamina B12, que está presente em fontes animais como carne, frango, peixe, ovos, leite e derivados. Na população indiana em geral a deficiência varia 35 a 75%. Após  a cirurgia, em média 37% dos indianos têm a deficiência. O vegetarianismo é o estilo de vida do indiano e o uso de B12 adicional deve ser permanente. Duas formas de suplementação são usadas: adenosilcobalamina e metilobalamina. Tanto no Bypass Gástrico quanto no Sleeve há uma redução importante no fator intrínseco e no número de células parietais, o que prejudica ainda mais o aproveitamento da vitamina B12. No Bypass há desvio do íleo e inviabiliza a absorção desta vitamina. O uso de suplementação de B12 é mandatório e permanente. A RDA para adultos é de 1mcg/d, mas após a cirurgia bariátrica a necessidade é de 500 a 1000mcg intramuscular pelo menos a cada 15 dias. Apresentação nasal ou sublingual  de 1000 a 1200mcg/dia pode ser uma dose de manutenção. No Brasil temos suplementos que abrangem o complexo B: vitaminas B1, B6 e B12, o que torna mais efetiva a suplementação, lembrando que não é possível dosar os exames bioquímicos de todas as vitaminas e as deficiências podem ocorrer simultaneamente.

As proteínas são outra preocupação. A ingestão dos indianos baseia-se em cereais e leguminosas, que podem ser incompletas em aminoácidos essenciais como lisina e triptofano. A diminuição da secreção de ácido clorídrico do estômago, assim como pepsina, que faria o desdobramento das proteínas em pequenos polipeptídeos. As proteínas são absorvidas no intestino e a desnutrição protéica ocorre por vários motivos como intolerâncias e aversões alimentares, estado socio econômico, vômitos e diarreia. Alguns sinais de deficiência protéica são alopecia, perda do tônus muscular e perda muscular como um todo. A deficiência nutricional extrema pode levar a edema em membros inferiores e anasarca. A recomendação nutricional após a bariátrica é de 1 – 1,5g/Kg/d.

E como atingir as necessidades diárias de ferro, vitamina B12 e proteínas em pacientes vegetarianos?

Algumas fontes vegetais pode ser usadas como:

ALIMENTO (100g) QUANTIDADE DE PROTEÍNAS (g)
FEIJÃO 4,5 – 6,1
LENTILHA 6,3
TOFU 6,6
GRÃO DE BICO 8,9
QUINOA 4,4
AMÊNDOAS 18,6
CASTANHA DE CAJU 18,5
CASTANHA DO PARÁ 14,5
CHIA 17
BRÓCOLIS 2,1
VAGEM / ERVILHA 7,5

O whey vegano feito de ervilha também é uma boa opção protéica para complementar.

 

Proteínas: por quê são tão importantes?

Proteínas: por quê são tão importantes?

Proteínas são polímeros complexos, caracterizados pela presença de nitrogênio em sua estrutura química. São formadas por ligação de 20 diferentes aminoácidos. A sequencia destes aminoácidos na cadeia é determinada pelo ácido desoxirribonucleico (DNA). por meio de processos de transcrição e tradução. Destes 20 aminoácidos, nove são essenciais, ou seja, não podem ser sintetizados pelo organismo humano a partir de outros compostos, devendo ser ingeridos pela alimentação. A deficiência destes aminoácidos essenciais provoca redução da taxa de crescimento do organismo e diminuição das funções não vitais, como a reprodução, podendo até levar a falência de órgãos vitais como cérebro e o coração.

Por isso o ser humano precisa ingerir as principais fontes protéicas diariamente como leite, carnes, ovos, cereais e leguminosas.

As proteínas das leguminosas como feijões, ervilhas, amendoim, grão de bico e lentilhas caracterizam-se por um teor protéico elevado, que varia de 20 a 40%, sendo a maior parte constituída por globulinas (60 a 90%) e albuminas. Sua digestibilidade pode variar de 48 a 79%, dependendo da variedade e das condições de processamento. Os fatores anti nutricionais devem ser inativados pelo processamento térmico prévio ao consumo.

Os ovos são compostos por casca, gema e clara, contendo respectivamente (4%,  17,4% e 15%) de proteínas. Apresentam um valor nutricional elevado em função da adequação de seus aminoácidos essenciais às necessidades humanas e à digestibilidade elevada.

A proteína ingerida diariamente, somada à proteína proveniente do intestino na forma de enzimas digestivas, células descamadas e mucinas, é digerida e absorvida de forma quase completa. Este processo fornece os aminoácidos para o pool de aminoácidos corporal. Menos de 10% desta proteína total aparece nas fezes. Se a alimentação contribuir com cerca de 70 a 100g de proteínas e a proteína endógena contribuir com cerca de 100g, então é esperado que aproximadamente 1 a 2g de nitrogênio sejam encontrados nas fezes, o que equivale a cerca de 06 a 12g de proteína.

A RDA das proteínas para adultos é 0,8g/Kg/dia. Pacientes de cirurgia bariátrica podem aumentar sua necessidade diária para 1,2g/Kg/dia e nem sempre conseguem ingerir através da alimentação grandes quantidades de proteínas. Isto porque há uma diminuição importante de enzimas digestivas no estômago e uma inabilidade de mastigação completa e eficaz. Além disso, muitos pacientes relatam intolerância à lactose e excluem leite e derivados de sua alimentação de forma inadvertida. Para suprir a necessidade diária de proteínas é aconselhado usar whey protein como suplementação de forma permanente para manter a massa muscular e prevenir a desnutrição protéica.

Segue tabela com os tipos de whey e sua classificação:

HIDROLISADO ISOLADO CONCENTRADO
97% DE PUREZA

FILTRAÇÃO MÁXIMA

29g PROTEÍNAS

110Kcal

ABSORÇÃO IMEDIATA

06g de BCAA

05g de Glutamina

03g de leucine

Zero lactose

Não alergênico

94% DE PUREZA

FILTRAÇÃO ALTA

28g PROTEÍNAS

117Kcal

ABSORÇÃO EM 30 MINUTOS

06g de BCAA

05g de Glutamina

03g de leucine

Zero lactose

81% DE PUREZA

FILTRAÇÃO LEVE

24g PROTEÍNAS

140Kcal

ABSORÇÃO ATÉ 01 HORA

04g de BCAA

03g de Glutamina

02g de leucine

Vitamina A: fundamental para nossa visão

VITAMINA A: fundamental para nossa visão!                                                                                                                       

É denominada de retinol devido sua função específica na retina do olho. É um álcool insaturado e sua estrutura permite a formação de 16 isômeros, dois com importância:

  • transretinal (forma biologicamente mais ativa)
  • cis-retinol com ação biológica na retina e ciclo visual (síntese de rodopsina)

A vitamina A é lipossolúvel e tem funções muito importantes no crescimento, visão, integridade estrutural e funcional do tecido epitelial, reprodução e formação de dentes e ossos. Atua na síntese protéica e de membranas celulares, além da proteção de barreira mucosa (ácido retinóico). Na visão é super importante porque faz a fotorrecepção em bastonetes (visão noturna) e reações cromóforas nos cones (sentido que dá cor à luz brilhante).

Quando há deficiência (retinol circulante <0,35mcmol/L), a reconstituição da rodopsina torna-se mais lenta, ocasionando cegueira noturna, que é a forma mais precoce da hipovitaminose A. A deficiência de vitamina A também causa diminuição na síntese protéica e na diferenciação de células ósseas.  Pode provocar queratinização das mucosas do trato gastrointestinal e urinário, diminuindo a barreira contra infecções.

Deficiências reversíveis: cegueira noturna, xerose conjuntival, manchas de Bitot, xeroftalmia e queratinização de córnea.

Deficiências irreversíveis: ulceração da córnea, ceratomalácia, cegueira irreversível.

Melhores fontes de vitamina A: fígado, leite, ovos, queijo, manteiga, mamão, tomate, abóbora, cenoura, pimentão, alface, banana, manga, pupunha, tucumã e umari.

Na cirurgia bariátrica, existem algumas evidências sobre a vitamina A:

♠ Análise de 110 casos de RGYB – 15,9% apresentaram a deficiência de vit A na avaliação de 01 ano após a cirurgia

Johnson LM, Ikramuddin S, Leslie DB, Slusarek B, Killeen AA. Surg Obes Relat Dis. 2019 Jul;15(7):1146-1152

♠ Análise de 249 pacientes de RGYB – em 06 meses havia deficiência grave de vitamin A (vitA <39mcg/ml) em 28% dos pacientes e deficiência moderada (vitA <30mcg/ml) em 18% dos operados.

Jalilvand A, Blaszczak A, Needleman B, Hsueh W, Noria S J Laparoendosc Adv Surg Tech A.2020 Jan;30 (1):20-30.

♠ Caso Clínico: Mulher de 52 anos com RGYB há 22 anos apresentou cegueira notura e exames de vitamin A <30mcg/ml.

Bhakhri R, Ridder WH 3rd, Adrean S. Optom Vis Sci. 2019 Mar ;96 (3): 227-232.

♠ Gravidez após o RGYB             riscos de inadequação de retinol e betacaroteno e pode impactar com intercorrências no período neonatal como macrosomia, anemia, etc.

Cruz S, Machado S, Cruz S, Pereira S, Saboya C, Ramalho A. Nutr Hosp 2018 Jan 18;35(2):421-427.

Cruz S, Matos A, Pereira S, Saboya C, da Cruz SP, Ramalho A Obes Surg 2018 Jan;28(1):114-121.

 

Abreviação de Jejum – Protocolo ERAS

ABREVIAÇÃO DE JEJUM PRÉ OPERATÓRIO

Há pouca informação ainda sobre a abreviação de jejum com uso de líquidos ricos em carboidratos. Um pré operatório bem feito pode render melhores resultados após a cirurgia.

Por isso, em busca de excelência na boa recuperação nutricional, diminuição do tempo de internação, a quebra do jejum pré operatório pode fazer a diferença. É segura, melhora o controle glicêmico.

O jejum prolongado é prejudicial ao paciente, especialmente no paciente idoso. A resposta orgânica ao jejum é agravada com o trauma operatório e a lesão tecidual que o segue. Além do aumento dos hormônios contrarreguladores, o jejum associado ao trauma desencadeia maior produção de mediadores inflamatórios que incrementam a resposta orgânica com inúmeros efeitos, tais como aumento da resistência insulínica, proteólise muscular, lipólise e, dependendo do porte da operação, franca resposta inflamatória sistêmica. Nesse contexto, ocorre liberação de citocinas e produção de proteínas de fase aguda em direta associação com a
intensidade do trauma.

Recomenda-se em operações eletivas tempo de jejum de seis horas para sólidos e de duas horas para líquidos claros contendo carboidratos; uso de maltodextrina a 12,5% em volume de 200-400 mL, seis e duas horas antes da operação. Exceções a essa
última recomendação são: obesidade mórbida, gastroparesia, mau esvaziamento gástrico, suboclusão ou obstrução intestinal e doença
do refluxo gastroesofágico moderada e grave; Jejum pré-operatório prolongado é desnecessário na maioria dos pacientes; Interrupção da ingestão nutricional é desnecessário no pós-operatório na maioria dos pacientes.

Ainda precisamos de mais diretrizes voltadas para a cirurgia bariátrica, que facilitem a orientação pré operatória e a melhor e mais rápida recuperação do paciente no período pós operatório.

Fontes:

  1. Lassen K etal. Clinical Nutrition 31 (2012). 817 – 830.
  2. Feguri GR etal. Rev Bras de Cardiovasc 2012; 27 (1): 7 – 17.
  3. Fearon KC, Ljungqvist O, Von Meyenfeldt M et al.Enhanced recovery after surgery: a consensus review of clinical care for patients undergoing colonic resection. Clin Nutr 2005. 24:466–477.
  4. Enhanced Recovery After Surgery – ERAs. History. Disponible: https://erassociety.org/about/history/. Acess: 10 april, 2019.

 

ESPEN: Guia prático de Nutrição Clínica na Doença Inflamatória Intestinal

ESPEN: Guia prático de Nutrição Clínica na Doença Inflamatória Intestinal

O guia nutricional divulgado consiste de 40 recomendações para nortear o tratamento nutricional na Doença Inflamatória Intestinal(DII) que são a Retocolite Ulcerativa (RU) e a Doença de Crohn (DC):

  1. Prevenção da DII: dieta rica em fibras e vegetais, rica em ácidos graxos w 3 e baixa em ácidos graxos w 6.
  2. Amamentação é recomendada, porque diminui o risco de DII.
  3. Pacientes com DII têm alto risco de desenvolver desnutrição, por isso precisam de um diagnóstico preciso e regular. Pacientes desnutridos com DII devem ser tratados adequadamente porque estão sujeitos a um pior prognóstico, complicações, piora da qualidade de vida e mortalidade.
  4. Os requerimentos de energia dos pacientes com DII são similares ao da população geral.
  5. Os requerimentos protéicos no período de atividade da doença é de 1,2 a 1,5g/Kg/d e no período de remissão é de 1g/Kg/dia. Atenção porque o uso de corticóides pode depletar proteínas em crianças e adultos com DC.
  6. Pacientes com DII devem checar as deficiências de micronutrientes com regularidade para corrigir as possíveis deficiências nutricionais.
  7. A suplementação de ferro é recomendada para pacientes com DII quando estiverem com anemia ferropriva. A suplementação será mantida até os níveis de hemoglobina e ferro se normalizarem. O uso de ferro via oral é a primeira possibilidade. Ferro endovenoso deve ser proposto se o paciente for intolerante ao ferro via oral  ou quando a hemoglobina estiver abaixo de 10.
  8. Não há uma dieta recomendada para pacientes em remissão da DII.
  9. Pacientes com diarreia severa ou alto débito na jejunostomia ou ileostomia devem ter monitorados o sódio na urina para verificar se há decréscimo do fluido hipotônico e aumento da solução salina), Infusão parenteral com fluidos e eletrólitos) pode ser necessária nestes casos.
  10. Pacientes com DC com obstrução intestinal ou estenose, podem necessitar de dieta com adaptação de textura ou dieta enteral pós estenose.
  11. Pacientes com DII (adultos ou crianças) com doença ativa que são tratados com esteróides, devem ter seus níveis de cálcio e vitamina D monitorados e suplementados se necessário, para prevenir a perda da densidade mineral.
  12. O tratamento com sequestrantes como a colestiramina tem um risco adicional mínimo na absorção de gordura e não precisa de uma dieta modificada. Pacientes com hiperoxaluria também tem má absorção de gorduras
  13. Dietas de exclusão não devem ser recomendadas em pacientes com DC porque cada paciente possui sua intolerância individual.
  14. A terapia com probióticos como Lactobacillus reuteri ou VSL#3 pode ser usada para proporcionar remissão de RU moderada.  Probióticos NÃO devem ser usados na fase ativa da DC.
  15. Suplementos nutricionais orais são o primeiro passo para uso na DII, mas geralmente são os de menor suporte adicional à alimentação normal. Se a via oral não for suficiente, deve-se considerar uma terapia de suporte nutricional. A nutrição oral ou enteral (NE) devem ser preferenciais à nutrição parenteral (NPT), a menos que esta seja completamente indicada. A NPT é indicada quando a via oral e via enteral não são suficientes, quando houver obstrução intestinal e não tiver possibilidade de usar nutrição enteral, ou quando houver fístula de alto débito.
  16. Nutrição enteral (NE) é efetiva e recomendada na indução da remissão em crianças e adolescentes com DC ativa.
  17. Para NE tubo nasal ou acesso percutâneo pode ser usado. Em pacientes com DC a NE deve ser usar com bomba de infusão.
  18. NE polimérica, com moderado teor de gordura, sem suplementos específicos pode ser a escolha da terapia nutricional em DII ativa. Fórmulas específicas ou substratos como glutamina, ácidos graxos W3 NÃO são recomendados para NE ou NPT em DII.
  19. Pacientes com DC devem prevenir a desidratação para evitar o tromboembolismo
  20. Pacientes de DC com fístula distal (baixo íleo ou colônica) e baixo débito podem usualmente receber suporte nutricional enteral. Pacientes com fístula proximal e ou com alto débito devem receber suporte nutricional parcial ou exclusivo em NPT.
  21. Pacientes com DC em deprivação nutricional por muitos dias, precisam ter precauções e intervenções para prevenir a síndrome da realimentação, particularmente monitorando fósforo e tiamina.
  22. NE é segura e recomendada como suporte nutricional em pacientes com RU severa. NPT NÃO deve ser usada em RU, a menos que ocorra falência intestinal.
  23. Em caso de cirurgia eletiva, o pré operatório deve seguir o protocolo ERAS, com abreviação de jejum. Em cirurgias de emergência, a terapia nutricional deve iniciar precocemente com NE ou NPT quando o paciente está desnutrido e não responde satisfatoriamente com a ingestão via oral por 07 dias após a cirurgia.
  24. Pacientes que não atingem sua recomendação diária de energia e protéinas, devem ser encorajados a usar suplementos nutricionais via oral no período peri operatório. Se não toleram o suporte via oral, pode usar a NE. Se o paciente está com diagnóstico de desnutrição, a cirurgia da DII deve ser atrasada em 7 a 14 dias, se possível, para uma terapia nutricional intensiva.
  25. A combinação de NE e NPT deve ser considerada, sendo 60% das calorias por via enteral.  A NPT no periodo perioperatório de DII deveriam ser usualmente usadas como suplementar à NE.  NPT deve ser usada sozinha, se a NE não for possível como abcesso, vômitos ou diarreia severos ou por contra indicação como obstrução intestinal e ileal, choque severo ou isquemia intestinal.
  26. Pacientes cirúrgicos de DII que faem precocemente o suporte nutricional apropriado, diminuem o risco de complicações pós operatórias, independentemente da via alimentar de administração.  Pacientes com DC com prolongada insufiência intestinal a NPT é mandatória.
  27. A alimentação via oral ou NE devem ser iniciadas precocemente após a cirurgia de DII. Após proctocolectomia ou colectomia, água e eletrólitos devem ser administrados para assumir a estabilidade hemodinâmica.
  28. Pacientes em remissão da DII devem consultar um nutricionista como parte do cuidado multidisciplinar para prover a terapia nutricional apropriada, prevenir desnutrição e desordens relacionadas à nutrição.
  29. NÃO há uma dieta específica para remissão da DII.
  30. A suplementação com ômega 3 não deve ser usada na remissão de DII.
  31. Dietas ricas em fibras não especificas não são recomendadas oara remissão de DII.
  32. Terapia com probióticos deve ser considerada na remissão da RU, mas não na remissão de DC.
  33. Pacientes colectomizados devem ser tratados com mistura de probióticos VSL#3, se o tratamento com antibióticos falhar. A mistura do probiótico VSL#3 pode ser usada como prevenção primária e secundária de inflamação no puch em pacientes com RU que tem colectomia e anastomose no pouch anal.
  34. Nem NE, nem NPT são recomendadas na remissão de DII. A NE só poderá ser usada se o paciente estiver desnutrido e não atinge sua recomendação dietética diária via oral com aconselhamento nutricional.
  35. Dieta padrão deve ser usada para pacientes com DII em remissão.
  36. Quando mais de 20cm de ileo distal , com ou sem combinação com a válvula ilecocecal for ressecada, a vitamina B12 deve ser administrada em pacientes com DC.
  37. Pacientes com DII tratados com sulfasalazina e metotrexato, devem suplementar vitamina B9 – ácido fólico.
  38. Pacientes com DII que estão grávidas, os níveis de ferro e folato devem ser monitorados regularmente. Se houver deficiência, devem ser suplementados.
  39. O exercício físico deve ser encorajado para pacientes com DII por causa a diminuição natural da massa muscular.
  40. Pacientes obesos com DII, devem ser orientados para perder e manter o peso somente nas fases de remissão da doença, de acordo com os guidelines de obesidade.

Fonte: Bischoff SC et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in Inflammatory Bowel Disease. Clinical Nutrition 39 (2020) 632 – 653.

Doença Inflamatória Intestinal: um desafio nutricional

DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL:


Receber um diagnóstico de doença inflamatória intestinal (DII) é algo que muda para sempre o modo de levar a vida, seja pelo estilo de vida, seja pela sua alimentação.

 

Mas o que é a doença inflamatória intestinal (DII)?

A DII engloba a retocolite ulcerativa (RCU) e a Doença de Crohn (DC). Ambas são graves e exigem cuidados de uma equipe bem afinada para proporcionar a melhor qualidade de vida que o paciente puder ter. A RCU é conhecida por afetar apenas o intestino, já a DC pode afetar todo o trato gastrointestinal desde a boca até o ânus.

 

Realidades mundiais diferentes:
– EUA: é mais frequente pacientes com DC com IMC >30 do que com IMC <18.
– Europa / Asia: prevalência de obesidade é menor e IMC pré operatório é menor que nos EUA.

 

Há um aumento do número de casos de DII no Brasil e Caribe, que se deve muito ao clima, cultura, dieta, infraestrutura de saúde e aspectos sócio econômicos.

 

Os sintomas mais comuns da inflamação abrangem: dores abdominais, mudanças no hábito intestinal como diarreia ou obstipação, dores intensas, sangramentos retais, perda de peso, cansaço, fraqueza, etc.

 

A amamentação, assim como o consumo de uma alimentação rica em fibras com frutas e vegetais variados podem ser medidas preventivas da DII.

 

Será que qualquer pessoa pode ter DII?
Alguns indivíduos podem ser geneticamente mais predispostos a ter, principalmente os que usam medicamentos contínuos que podem modificar a imunidade e a microbiota intestinal. A doença pode acometer crianças, jovens e adultos. O diagnóstico precoce é decisivo para melhorar o estado nutricional e a qualidade de vida do paciente.

 

Existem dois momentos distintos da doença: a remissão, ou seja, quando há o controle da doença com medicamentos específicos onde os sintomas podem cessar e outro em que há a atividade da doença com sintomas importantes e debilitantes como sangramento retal, diarreia, emagrecimento, dor abdominal importante.

 

Quando ocorrem estas manifestações inflamatórias é necessário um cuidado maior com a alimentação, por vezes uso de suplementos via oral ou se não for suficiente para a sua nutrição, o uso de outras vias como enteral ou parenteral são necessárias. Alguns pacientes podem necessitar de cirurgias de repetição sempre que a inflamação estiver grave e de difícil controle pelo tratamento clínico. Podem ocorrer com frequencia deficiências nutricionais importantes como anemias por falta de ferro, ácido fólico e vitamina B12. Por isso as avaliações médicas são fundamentais e devem ocorrer periodicamente.

 

A desnutrição pode ocorrer tanto em RCU como em DC e piorar a recuperação após a cirurgia.

 

A alimentação na DII deve ser individualizada. Os pacientes são orientados a fazer um registro alimentar diário e a identificar os alimentos que possam desencadear dor ou diarreia e assim excluí-los do seu dia a dia. A orientação básica é se DOEU, NÃO COMA! As pessoas são diferentes e a alimentação também se comporta de maneira singular, mesmo entre membros da mesma família. A orientação nutricional básica na doença em atividade quando há diarreia grave, é de alimentos pobres em resíduos, para dar o mínimo de trabalho no trato gastrointestinal, preferência por carnes brancas pobres em gordura, uso de temperos como cúrcuma, frutas e legumes cozidos sem as fibras, água em quantidade suficiente 35ml/Kg de peso por dia. Evitar bebidas alcoólicas, refrigerantes e outras bebidas gaseificadas. Ficar de olho no peso e no aspecto das fezes. Qualquer alteração ou sangramento deve ser avisado ao médico.

 

Referências Bibliográficas:

1. ECCO Topical Review. Journal of Crohn’s and Colitis, 2020, 431–444.
2. ESPEN S.C. Bischoff et al. / Clinical Nutrition 39 (2020) 632 – 653.
3. Kotze PG et al. Clin Gastroent Hepat 2020 Feb;18 (2): 304-312.