Confinamento, distanciamento social, ansiedade e ingestão alimentar

Em 12 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a humanidade estava diante de uma pandemia pela Sars – Covid 19, uma doença nova, altamente contagiosa e sem nenhum tratamento efetivo ou vacina que pudesse acalmar a população mundial. O pânico foi geral! Foi determinado o distanciamento social como forma de prevenção e o que se pensava que em pouco tempo poderia ser solucionado, tomou dimensões sem precedentes.

Quem pôde foi encaminhado para o trabalho domiciliar, as escolas foram fechadas e milhões de crianças ficaram em casa em home schooling. As crianças ainda com a grande tendência de serem as maiores vetoras da doença sendo assintomáticas tiveram todas as suas atividades suspensas. A princípio os idosos foram considerados o maior fator de risco, associados com comorbidades como pressão alta, diabetes, etc e os obesos ficaram na berlinda como fortes candidatos a terem um pior prognóstico.

Sempre que uma doença nova chega e de repente como esta, estudos técnicos científicos devem ser feitos para determinar etiologia, epidemiologia, e tantas nuances que envolvem o que é, como se transmite e como se faz o tratamento. Até hoje 4/7/2020 já se têm inúmeros projetos adiantados sobre alguns medicamentos, uma vacina vinda de Oxford, uma vacina chinesa para ser testada pelo Instituto Butantã e Fundações como a Lemann que estão investindo pesado em achar uma solução rápida e efetiva para toda a população.

Enquanto isso, ainda temos muitos negacionistas da pandemia, além de uma guerra (totalmente desnecessária) política nos países que não souberam conduzir com serenidade e respeito à ciência o seu país e sua população que se vê desgovernada como é o caso do Brasil. Mas isto é outro assunto….

Como vários segmentos econômicos tiveram que fechar suas portas, o número de desempregados ficou alarmante. Dentro de casa, as pessoas que são feitas de sentimentos e emoções, estão à flor da pele. Houve um aumento considerável de agressões às mulheres, a família precisou se reestruturar rapidamente, uns precisando estudar on line, outros trabalhar ao mesmo tempo e isso se tornou uma fonte de estresse. As desigualdades sociais ficaram bem mais evidenciadas e quem tem seu computador, sua internet banda larga, sua escola ensinando à distância, dinheiro na conta para ter a geladeira cheia, é um privilegiado que nem deveria se queixar de nada.

Entretanto a ansiedade bateu à porta de todos, sem distinção de qualquer natureza. Muitos estão sobrecarregados com trabalho extra com os seus deveres de profissional, de dona (o) de casa, de professor dos filhos e ainda manter a calma e a fé de que tudo ficará bem.

Ao pensar no grupo dos chamados “privilegiados”, a ingestão alimentar se tornou um escape, um conforto. Muitos se dedicaram no tempo livre para cozinhar mais e isso foi bom, mas para aliviar as tensões, o tipo de alimento confortante normalmente é o mais calórico. Associado ao sedentarismo imposto (academias fechadas, necessidade de sair com máscaras), nem as inofensivas caminhadas se tornaram algo seguro. Além disso o sono foi perturbado com tantos acontecimentos.

Comer mais de forma ansiosa + sedentarismo + mudanças no ritmo circadiano com a alteração no sono = AUMENTO DE PESO

O que fazer diante disso?

Primeiro tentar manter a calma e uma certa rotina. NÃO SE COBRE DEMAIS!

Procurar fazer algum exercício em casa, no tapete da sala mesmo com auxílio de algum aplicativo pode ajudar. Criar um horário para isso e respeitá-lo.

Não estamos em férias, a comida deve ser a trivial e com as refeições fracionadas e em horários adequados.

Planeje sua semana para ir à feira, mercado, açougue. Saia uma vez só de casa.

Não precisa ficar escravo da cozinha. Tenha prazer em cozinhar e deixar algumas coisas pré preparadas. Por ex. feijão cozido em potes pequenos. A cada dia você tira do freezer e só tempera a seu gosto. Faça o branqueamento de verduras e (choque de água fria e quente) armazene em porções menores. Assim você terá verduras todos os dias. As folhas podem ser lavadas e colocadas em recipiente limpo na geladeira. Elas se mantém bem durante a semana. As carnes, frango, peixe ou ovos, seria melhor fazer na hora de comer se vc preferir o grelhado. Entretanto se quiser picadinho por ex você já pode deixar pronto para aquecer na hora de comer. Inclua todos os membros da família neste processo, quem não prepara a comida, pode lavar a louça, limpar o fogão, etc. Até os pequenos se sentirão úteis. Isso é um processo, precisa ser conversado antes para ninguém se estressar.

Mantenha sua imunidade em alta com o consumo regular de frutas cítricas ricas em vitamina C como laranja, ponkan, maracujá, limão, etc. Procure usar todos os dias todos os grupos alimentares (proteínas, carboidratos, vitaminas e minerais, fibras). Não existe um alimento único tão poderoso para te trazer imunidade. O importante é o conjunto de todos os grupos alimentares que você coloca no prato. Não é hora de fazer restrições alimentares severas, apenas preserve uma alimentação saudável.

Cuide da sua saúde mental. Muitos estão afastados de seus entes queridos e a tecnologia pode ajudar: ligue mais, faça vídeos (eu sei que estamos todos cansados) e tente manter os vínculos com familiares e amigos. Mantenha os idosos ocupados e solicitados. Peça para avó aquele cachecol que só ela pode e sabe fazer com carinho, leve um prato que você fez com uma receitinha nova. Pode agradar.

Lava as mãos com água e sabão, use a máscara se precisar sair (mesmo que o presidente ignorante diga que não) e siga estas recomendações abaixo que ainda foram pensadas por um ministro da saúde (agora não temos mais) que podem ser úteis:

Ainda se puder e tiver, mantenha a FÉ, estamos todos juntos nessa. Não é um problema daqui, é no mundo todo! Com força e determinação, nossos cientistas que estão incansáveis debruçados em busca de uma vacina ou de um tratamento medicamentoso efetivo vão conseguir nos ajudar. Faça a sua parte e ajude quem puder, ninguém precisa saber!!!

Alimentação da Mulher

Com a evolução dos tempos, o movimento feminista trouxe as mulheres para o mercado de trabalho após muitas lutas. As mulheres passaram a ocupar um lugar importante na sociedade com a sua organização, determinação e tenacidade em ocupar seus espaços nas empresas, nos consultórios, na nasa lançando foguetes ou onde a mulher queira estar e o que ela queira ser e fazer.

Mas as mulheres ainda possuem outros papéis também igualmente importantes como gerar filhos, cuidar de si e da sua família. Embora muitas obrigações sejam divididas igualmente com os homens, as mulheres modernas estão sobrecarregadas e precisam de um cuidado extra. E um deles é com a sua alimentação.

A alimentação da mulher ao longo da vida deve ser basear em alimentos saudáveis como preconizado pela Pirâmide Alimentar tradicional com macro e micronutrientes em quantidades ótimas para cada faixa etária.

Com o passar dos anos a mulher diminui os níveis de estrogênio ovariano e chega ao climatério e podem ocorrer inúmeros sintomas como ondas de calor, tontura, sudorese, etc. Alterações ósseas que aumentam o risco de osteoporose e cardiovasculares também podem acontecer. Pode ser observado um aumento de colesterol e triglicerídeos nesta fase. O ideal é investir em alimentos frescos  como frutas e legumes, fibras como aveia e linhaça que por ser rica em ácidos graxos essenciais, vitaminas e minerais que pode prevenir inclusive alguns tipos de câncer.

A mulher pode sofrer várias mudanças com redução de massa muscular e aumento da gordura corporal, especialmente na região abdominal.  Por isso é imprenscindível diminuir o consumo de alimentos gordurosos e com açúcar e sal. Deve ser valorizada a ingestão de pelo menos cinco porções de hortaliças e grãos, pelo menos duas porções de fontes de cálcio (verifique o rótulo de leite e iogurtes e consuma os com maior teor de cálcio e baixo teor de gordura.

Outra perda importante é a de colágeno que diminui a elasticidade da pele, aumenta as rugas e a fragilidade articular e óssea. O uso de proteínas de alto valor biológico é essencial como carnes magras e ainda valorizar as fontes de vitamina C e silício como frutas, cereais integrais para estimular a produção de colágeno natural. Um profissional habilitado pode prescrever suplementação se houver necessidade. Os antioxidantes são importantes para diminuir os danos celulares como o ômega 3 através dos peixes, licopeno com tomate e alimentos vermelhos, fitoesteróis e fitoestrógeno como soja, betacaroteno com os alimentos amarelos e vermelhos, vitamina C com frutas cítricas, indóis como brócolis e couve-flor, quercetina como cebolas e uvas e vitamina E com gérme de trigo e vegetais folhosos.

 

Alimentação no exercício físico

Você sabe qual a diferença entre atividade física e o exercício físico? A primeira é toda a atividade que você executa durante o dia, por exemplo arrumar a cama, tomar banho, trabalhar, etc e o segundo é o que fazemos de forma programada, por exemplo a musculação, a corrida, o pilates, etc. Como o passar dos anos, nosso ritmo tanto de atividade quanto de exercício físicos diminuíram com tantas facilidades eletrônicas e a nossa necessidade cada vez maior de trabalharmos fechados, conectados e fatalmente sentados por horas a fio.

O exercício físico diário conhecidamente proporciona muitos benefícios à saúde individual. Iniciar este projeto de vida, incluí-lo e mantê-lo na sua rotina diária é um desafio, que pode ser muito prazeroso e trazer inúmeros ganhos como:

  • aumento da produção de neurotransmissores que promove reparação celular do cérebro;
  • prevenção de acidente vascular cerebral;
  • prevenção de alguns tipos de câncer;
  • melhora a qualidade do sono;
  • aumenta a auto estima;
  • estimula a capacidade de decisão;
  • aumenta a concentração;
  • melhora a memória;
  • promove o crescimento de novas células nervosas e vasos sanguineos;
  • melhora a capacidade de realização de várias tarefas e planejamento das mesmas;
  • menos doença e mais saúde;
  • controle do peso;
  • diminui a pressão arterial;
  • melhora a postura;
  • protege contra a depressão;
  • diminui a ansiedade;
  • entre outros.

Antes de iniciar qualquer exercício físico programado, é ideal que você se submeta a uma avaliação física completa que contemple sua composição corporal, postura, possíveis dores articulares, tudo isso observado por um educador físico que o conduzirá para uma frequencia e intensidade de atividade ideais.

Planejado seu treino, logo vem a dúvida do que comer, quando comer e quanto comer. É uma preocupação coerente, já que o seu rendimento pode estar diretamente ligado ao que você consumiu ou deixou de consumir.

Antes do treino você precisará de uma energia rápida para melhorar sua performance. Para isso use frutas como banana, pêra, melão, papaya, caqui que oferecem vitaminas e minerais, pão integral que oferece carboidratos e proteinas como iogurtes ou queijo branco.

Durante o exercício procure valorizar muito a hidratação com água pura. Caso seu treino seja mais longo (duração maior de 90 minutos) você pode usar carboidratos em gel para oferecer uma energia extra. 

Após o treino priorize proteínas. Se o treino for pela manhã ou final da tarde e logo será seu almoço ou jantar, use carnes magras como frango, peixe ou ovos, além de carboidratos integrais como arroz integral, além e vitaminas e minerais advindo dos vegetais coloridos. Se o treino for à tarde, você pode usar o whey protein em leite ou água e batido com uma fruta como um lanche que fará sua recuperação tecidual.

Mantenha sempre o foco para cumprir seu objetivo diário de exercícios. O recomendado é no mínimo 150minutos por semana. Vamos lá sempre é tempo para começar, amar e nunca mais parar.

Lipídios

Os lipídios ou gorduras são macronutrientes insolúveis em água que fornecem 9Kcal por grama de produto. Por esta razão os lipídios têm sido associados negativamente à saúde, uma vez que a obesidade é muito correlacionada com outras doenças, como as cardiovasculares e o diabetes. Os lipídios alimentares como os ácidos graxos saturados e trans são relacionados com risco de doença cardíaca por sua habilidade em modular as concentrações de LDL-colesterol no sangue.

 

São referidos como óleo (líquido) ou gordura (sólida). 

Podem ser:

a) Insaponificáveis:
▪ Ács. graxos livres
▪ Esteróis
▪ Carotenóides
▪ Monoterpenos
▪ tocoferóis

b) Saponificáveis
▪ Glicerídeos (mono, di e tri)
▪ Fosfolipídio
▪ Glicolipídios
▪ ceras e ésteres de esteróis

Classificação dos óleos:

Azeite de Oliva: é o produto obtido somente dos  frutos da oliveira (Olea europaea L.)
Azeite de Oliva virgem é o produto obtido do fruto da oliveira (Olea europaea L.), somente por processos mecânicos ou outros meios físicos.
Óleos Mistos ou Compostos são os produtos obtidos a partir da mistura de óleos de duas ou  mais espécies vegetais.
Óleos Vegetais e Gorduras vegetais com especiarias: são os óleos e gorduras vegetais adicionados de especiarias.
Resolução RDC nº 270, de 22 de setembro de 2005

Suas fontes são óleos derivados de plantas como palma, oliva ou sementes como milho e soja. Também há gorduras em carnes, frango, etc, leite e derivados e fontes marinhas como óleo de peixe, de foca e de baleia.

  • Óleo de Soja: um dos mais utilizados na alimentação domiciliar e indústria de alimentos. Tem alto teor de ácido linoléico (ômega 6), ácido oleico (ômega 9) e ácido linolênico (ômega 3).
  • Óleo de Palma: rico em vitamina E (tocoferóis e tocotrienóis). Está presente no azeite de dendê, é vastamente utilizado na indústria de alimentos como ingrediente de margarinas, sorvetes e bolachas.
  • Óleo de Canola: tem 7 a 10% de ômega 3, há evidências de que pode reduzir o LDL colesterol (colesterol ruim), rico em vitamina E tem propriedades antioxidantes. Como o óleo de soja pode ser utilizado de forma adequada para frituras.
  • Óleo de Girassol: apresenta alto teor de ácido linoleico e vitamina E. Muito utilizado na preparação de saladas, cozidos e conservas.
  • Óleo de Milho: é fonte de fitosteróis e contém ácidos graxos poli-insaturados linoléico e linolênico.
  • Óleo de Amendoim:  com alto teor de vitamina E, além de ser utilizado nas preparações de saladas e pratos especiais é beneficiado pela indústria farmacêutica e cosmética.
  • Óleo de Coco:  em temperaturas abaixo de 25°C se solidifica. Traz benefícios a saúde como fortalecimento do sistema imune. O óleo de coco extra virgem tem em sua composição o ácido láurico, mirístico e caprílico. Ainda que alguns estudos correlacionem o consumo do óleo de coco ao aumento do HDL colesterol (colesterol bom), não é recomendado seu uso para tratamento de hipercolesterolemia, sendo necessários estudos adicionais, por isso seu uso deve permanecer moderado.
  • Azeite de Oliva:  é tido como uma das opções mais saudáveis para uso culinário por ser rico em gordura monoinsaturada, que auxilia a reduzir os níveis de LDL colesterol. O artigo publicado pela equipe do Dr Freeman no Journal of the American College of Cardiology, em março de 2017, reforça seus benefícios pois refere que o consumo moderado de azeite extra virgem pode diminuir eventos de doenças cardiovasculares.

Sua classificação é:

  • Lipídios Simples. Ex. ac. graxos e ceras
  • Lipídios compostos. Ex fosfolipídeos
  • Lipídios derivados. Ex.carotenóides

Composição de ácidos graxos de diferentes óleos vegetais
                                                                                AG SATURADO (%)              AG POLIINSATURADO (%)               AG MONOINSATURADO (%)            PONTO DE FUMAÇA*
ÓLEO DE CANOLA                                                               7                                                               30                                                            59                                                                   213 – 223
ÓLEO DE GIRASSOL                                                         10                                                               40                                                            45                                                                   226 – 232
ÓLEO DE MILHO                                                               13                                                               59                                                            24                                                                    204 – 212
ÓLEO DE SOJA                                                                   14                                                               58                                                            23                                                                   226 – 232
ÓLEO DE ALGODÃO                                                        26                                                               52                                                            18                                                                    218 – 228
ÓLEO DE COCO                                                                 87                                                                 2                                                              6                                                                     170 – 177
AZEITE DE OLIVA                                                            14                                                                 8                                                             74                                                                    175 – 190
*Aparecimento de fumaça branco-azulada

São importantes para várias funções orgânicas como crescimento, desenvolvimento  e a manutenção da saúde.

Os ácidos graxos de cadeia curta são produzidos pela microbiota intestinal e possuem papéis anti-inflamatórios. Ex. Acético (2C), propiônico (3C) e butírico (4C). Uma vez formados são rapidamente absorvidos no jejuno, íleo, cólon e reto e constituem a principal fonte de energia para o enterócito. Estimulam a proliferação celular do epitélio, o fluxo sanguíneo visceral, aumentam a absorção de água e sódio, diminuem a absorção de amônia, importante em pacientes com encefalopatia hepática e insuficiência renal. Estimulam a absorção de vitamina K e magnésio pela acidificação do ambiente luminar. Diminuem o colesterol sérico pelo propionato e possuem propriedades antibacterianas prevenindo o estabelecimento de bactérias patogênicas como espécies de salmonela.

 

 

Referências bibliográficas:
– Freeman, A.M. et al. Trending Cardiovascular Nutrition Controversies. J Am Coll Cardiol. 2017;69(9):1172–87.
 – Iori M, Caleffi R, Naves A. Gastronomia Funcional no esporte: Alimento para sua performance. 1ª Edição. São Paulo. Valeria Paschoal Editora Ltda, 2017.
 – Melo ILP, Silva AMO, Filho JM. Lipídios. In: Cozzolino SMF, Cominetti C. Bases Bioquímicas e Fisiológicas da Nutrição: nas diferentes fases a vida, na saúde e na doença. São Paulo: Manole, 2013.
 – Nogueira-de-Almeida CA et al. Azeite de Oliva e suas propriedades em preparações quentes: revisão da literatura. International Journal of Nutrology. 2015; 8 (2): 13-20.
 – Sacks FM et al. Dietary Fats and Cardiovascular Disease: A Presidential Advisory From the American Heart Association. Circulation. 2017;136(3).
 – Santos R.D., Gagliardi A.C.M., Xavier H.T., Magnoni C.D., Cassani R., Lottenberg A.M. et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. I Diretriz sobre o consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular. Arq Bras Cardiol. 2013;100(1Supl.3):1-40.
 – Tanaka M et al. O papel dos óleos e gorduras na alimentação. In: Barrere APNB, Cardoso R, Piovacari SMF. Receitas Saudáveis Em Oncologia. 1ª Edição. São Paulo. Editora Atheneu, 2017.

 

 

Proteínas: por quê são tão importantes?

Proteínas: por quê são tão importantes?

Proteínas são polímeros complexos, caracterizados pela presença de nitrogênio em sua estrutura química. São formadas por ligação de 20 diferentes aminoácidos. A sequencia destes aminoácidos na cadeia é determinada pelo ácido desoxirribonucleico (DNA). por meio de processos de transcrição e tradução. Destes 20 aminoácidos, nove são essenciais, ou seja, não podem ser sintetizados pelo organismo humano a partir de outros compostos, devendo ser ingeridos pela alimentação. A deficiência destes aminoácidos essenciais provoca redução da taxa de crescimento do organismo e diminuição das funções não vitais, como a reprodução, podendo até levar a falência de órgãos vitais como cérebro e o coração.

Por isso o ser humano precisa ingerir as principais fontes protéicas diariamente como leite, carnes, ovos, cereais e leguminosas.

As proteínas das leguminosas como feijões, ervilhas, amendoim, grão de bico e lentilhas caracterizam-se por um teor protéico elevado, que varia de 20 a 40%, sendo a maior parte constituída por globulinas (60 a 90%) e albuminas. Sua digestibilidade pode variar de 48 a 79%, dependendo da variedade e das condições de processamento. Os fatores anti nutricionais devem ser inativados pelo processamento térmico prévio ao consumo.

Os ovos são compostos por casca, gema e clara, contendo respectivamente (4%,  17,4% e 15%) de proteínas. Apresentam um valor nutricional elevado em função da adequação de seus aminoácidos essenciais às necessidades humanas e à digestibilidade elevada.

A proteína ingerida diariamente, somada à proteína proveniente do intestino na forma de enzimas digestivas, células descamadas e mucinas, é digerida e absorvida de forma quase completa. Este processo fornece os aminoácidos para o pool de aminoácidos corporal. Menos de 10% desta proteína total aparece nas fezes. Se a alimentação contribuir com cerca de 70 a 100g de proteínas e a proteína endógena contribuir com cerca de 100g, então é esperado que aproximadamente 1 a 2g de nitrogênio sejam encontrados nas fezes, o que equivale a cerca de 06 a 12g de proteína.

A RDA das proteínas para adultos é 0,8g/Kg/dia. Pacientes de cirurgia bariátrica podem aumentar sua necessidade diária para 1,2g/Kg/dia e nem sempre conseguem ingerir através da alimentação grandes quantidades de proteínas. Isto porque há uma diminuição importante de enzimas digestivas no estômago e uma inabilidade de mastigação completa e eficaz. Além disso, muitos pacientes relatam intolerância à lactose e excluem leite e derivados de sua alimentação de forma inadvertida. Para suprir a necessidade diária de proteínas é aconselhado usar whey protein como suplementação de forma permanente para manter a massa muscular e prevenir a desnutrição protéica.

Segue tabela com os tipos de whey e sua classificação:

HIDROLISADO ISOLADO CONCENTRADO
97% DE PUREZA

FILTRAÇÃO MÁXIMA

29g PROTEÍNAS

110Kcal

ABSORÇÃO IMEDIATA

06g de BCAA

05g de Glutamina

03g de leucine

Zero lactose

Não alergênico

94% DE PUREZA

FILTRAÇÃO ALTA

28g PROTEÍNAS

117Kcal

ABSORÇÃO EM 30 MINUTOS

06g de BCAA

05g de Glutamina

03g de leucine

Zero lactose

81% DE PUREZA

FILTRAÇÃO LEVE

24g PROTEÍNAS

140Kcal

ABSORÇÃO ATÉ 01 HORA

04g de BCAA

03g de Glutamina

02g de leucine

Riboflavina (Vitamina B2)

RIBOFLAVINA (VITAMINA B2)

A riboflavina  foi descoberta no final do século XIX como um composto amarelo fluorescente presente no soro do leite.

É um pigmento de cor amarela, isolada inicialmente em tecidos animais, leite e ovos. É estável ao calor e oxidada em meio ácido. Possui baixa solubilidade em água e pode ser perdida adicionando bicarbonato na cocção ou exposta ao UV. É fosforilada na absorção e estocada no fígado, baço, rins e múscuko cardíaco.

Sua absorção aumenta na presença de alimentos (60% de eficiência) e, quando administrada isoladamente, apenas 15% é absorvido eficientemente.

O organismo humano não tem capacidade de sintetizar a riboflavina, por isso há a necessidade de se obter essa vitamina por meio da alimentação. As principais fontes são ovos, carnes, farelo de trigo, leite e derivados.  A RDA para adultos fica entre 1,1 a 1,3mg/d.

A absorção da riboflavina se dá no jejuno, porém o duodeno e íleo também tem participação nesse processo, o qual é feito por um receptor específico, com gasto de energia e dependência de sódio. O intestino grosso também colabora com a captação dessa vitamina. A ribloflavina absorvida pelo cólon é principalmente sintetizada pela microflora intestinal. Um alimentação rica em fibras favorece sua absorção.

Os sinais clínicos de sua deficiência são glossite, inflamação do trato respiratório, edema de mucosas, estomatites, anemia e dermatites. Deficiência crônica em crianças pode causar prejuízo no desenvolvimento corporal e cognitivo.

Fonte: Cozzolino S, Cominetti C. Bases Bioquímicas e Fisiológicas da Nutrição. Manole. 2013.

Vitamina A: fundamental para nossa visão

VITAMINA A: fundamental para nossa visão!                                                                                                                       

É denominada de retinol devido sua função específica na retina do olho. É um álcool insaturado e sua estrutura permite a formação de 16 isômeros, dois com importância:

  • transretinal (forma biologicamente mais ativa)
  • cis-retinol com ação biológica na retina e ciclo visual (síntese de rodopsina)

A vitamina A é lipossolúvel e tem funções muito importantes no crescimento, visão, integridade estrutural e funcional do tecido epitelial, reprodução e formação de dentes e ossos. Atua na síntese protéica e de membranas celulares, além da proteção de barreira mucosa (ácido retinóico). Na visão é super importante porque faz a fotorrecepção em bastonetes (visão noturna) e reações cromóforas nos cones (sentido que dá cor à luz brilhante).

Quando há deficiência (retinol circulante <0,35mcmol/L), a reconstituição da rodopsina torna-se mais lenta, ocasionando cegueira noturna, que é a forma mais precoce da hipovitaminose A. A deficiência de vitamina A também causa diminuição na síntese protéica e na diferenciação de células ósseas.  Pode provocar queratinização das mucosas do trato gastrointestinal e urinário, diminuindo a barreira contra infecções.

Deficiências reversíveis: cegueira noturna, xerose conjuntival, manchas de Bitot, xeroftalmia e queratinização de córnea.

Deficiências irreversíveis: ulceração da córnea, ceratomalácia, cegueira irreversível.

Melhores fontes de vitamina A: fígado, leite, ovos, queijo, manteiga, mamão, tomate, abóbora, cenoura, pimentão, alface, banana, manga, pupunha, tucumã e umari.

Na cirurgia bariátrica, existem algumas evidências sobre a vitamina A:

♠ Análise de 110 casos de RGYB – 15,9% apresentaram a deficiência de vit A na avaliação de 01 ano após a cirurgia

Johnson LM, Ikramuddin S, Leslie DB, Slusarek B, Killeen AA. Surg Obes Relat Dis. 2019 Jul;15(7):1146-1152

♠ Análise de 249 pacientes de RGYB – em 06 meses havia deficiência grave de vitamin A (vitA <39mcg/ml) em 28% dos pacientes e deficiência moderada (vitA <30mcg/ml) em 18% dos operados.

Jalilvand A, Blaszczak A, Needleman B, Hsueh W, Noria S J Laparoendosc Adv Surg Tech A.2020 Jan;30 (1):20-30.

♠ Caso Clínico: Mulher de 52 anos com RGYB há 22 anos apresentou cegueira notura e exames de vitamin A <30mcg/ml.

Bhakhri R, Ridder WH 3rd, Adrean S. Optom Vis Sci. 2019 Mar ;96 (3): 227-232.

♠ Gravidez após o RGYB             riscos de inadequação de retinol e betacaroteno e pode impactar com intercorrências no período neonatal como macrosomia, anemia, etc.

Cruz S, Machado S, Cruz S, Pereira S, Saboya C, Ramalho A. Nutr Hosp 2018 Jan 18;35(2):421-427.

Cruz S, Matos A, Pereira S, Saboya C, da Cruz SP, Ramalho A Obes Surg 2018 Jan;28(1):114-121.

 

Abreviação de Jejum – Protocolo ERAS

ABREVIAÇÃO DE JEJUM PRÉ OPERATÓRIO

Há pouca informação ainda sobre a abreviação de jejum com uso de líquidos ricos em carboidratos. Um pré operatório bem feito pode render melhores resultados após a cirurgia.

Por isso, em busca de excelência na boa recuperação nutricional, diminuição do tempo de internação, a quebra do jejum pré operatório pode fazer a diferença. É segura, melhora o controle glicêmico.

O jejum prolongado é prejudicial ao paciente, especialmente no paciente idoso. A resposta orgânica ao jejum é agravada com o trauma operatório e a lesão tecidual que o segue. Além do aumento dos hormônios contrarreguladores, o jejum associado ao trauma desencadeia maior produção de mediadores inflamatórios que incrementam a resposta orgânica com inúmeros efeitos, tais como aumento da resistência insulínica, proteólise muscular, lipólise e, dependendo do porte da operação, franca resposta inflamatória sistêmica. Nesse contexto, ocorre liberação de citocinas e produção de proteínas de fase aguda em direta associação com a
intensidade do trauma.

Recomenda-se em operações eletivas tempo de jejum de seis horas para sólidos e de duas horas para líquidos claros contendo carboidratos; uso de maltodextrina a 12,5% em volume de 200-400 mL, seis e duas horas antes da operação. Exceções a essa
última recomendação são: obesidade mórbida, gastroparesia, mau esvaziamento gástrico, suboclusão ou obstrução intestinal e doença
do refluxo gastroesofágico moderada e grave; Jejum pré-operatório prolongado é desnecessário na maioria dos pacientes; Interrupção da ingestão nutricional é desnecessário no pós-operatório na maioria dos pacientes.

Ainda precisamos de mais diretrizes voltadas para a cirurgia bariátrica, que facilitem a orientação pré operatória e a melhor e mais rápida recuperação do paciente no período pós operatório.

Fontes:

  1. Lassen K etal. Clinical Nutrition 31 (2012). 817 – 830.
  2. Feguri GR etal. Rev Bras de Cardiovasc 2012; 27 (1): 7 – 17.
  3. Fearon KC, Ljungqvist O, Von Meyenfeldt M et al.Enhanced recovery after surgery: a consensus review of clinical care for patients undergoing colonic resection. Clin Nutr 2005. 24:466–477.
  4. Enhanced Recovery After Surgery – ERAs. History. Disponible: https://erassociety.org/about/history/. Acess: 10 april, 2019.

 

ESPEN: Guia prático de Nutrição Clínica na Doença Inflamatória Intestinal

ESPEN: Guia prático de Nutrição Clínica na Doença Inflamatória Intestinal

O guia nutricional divulgado consiste de 40 recomendações para nortear o tratamento nutricional na Doença Inflamatória Intestinal(DII) que são a Retocolite Ulcerativa (RU) e a Doença de Crohn (DC):

  1. Prevenção da DII: dieta rica em fibras e vegetais, rica em ácidos graxos w 3 e baixa em ácidos graxos w 6.
  2. Amamentação é recomendada, porque diminui o risco de DII.
  3. Pacientes com DII têm alto risco de desenvolver desnutrição, por isso precisam de um diagnóstico preciso e regular. Pacientes desnutridos com DII devem ser tratados adequadamente porque estão sujeitos a um pior prognóstico, complicações, piora da qualidade de vida e mortalidade.
  4. Os requerimentos de energia dos pacientes com DII são similares ao da população geral.
  5. Os requerimentos protéicos no período de atividade da doença é de 1,2 a 1,5g/Kg/d e no período de remissão é de 1g/Kg/dia. Atenção porque o uso de corticóides pode depletar proteínas em crianças e adultos com DC.
  6. Pacientes com DII devem checar as deficiências de micronutrientes com regularidade para corrigir as possíveis deficiências nutricionais.
  7. A suplementação de ferro é recomendada para pacientes com DII quando estiverem com anemia ferropriva. A suplementação será mantida até os níveis de hemoglobina e ferro se normalizarem. O uso de ferro via oral é a primeira possibilidade. Ferro endovenoso deve ser proposto se o paciente for intolerante ao ferro via oral  ou quando a hemoglobina estiver abaixo de 10.
  8. Não há uma dieta recomendada para pacientes em remissão da DII.
  9. Pacientes com diarreia severa ou alto débito na jejunostomia ou ileostomia devem ter monitorados o sódio na urina para verificar se há decréscimo do fluido hipotônico e aumento da solução salina), Infusão parenteral com fluidos e eletrólitos) pode ser necessária nestes casos.
  10. Pacientes com DC com obstrução intestinal ou estenose, podem necessitar de dieta com adaptação de textura ou dieta enteral pós estenose.
  11. Pacientes com DII (adultos ou crianças) com doença ativa que são tratados com esteróides, devem ter seus níveis de cálcio e vitamina D monitorados e suplementados se necessário, para prevenir a perda da densidade mineral.
  12. O tratamento com sequestrantes como a colestiramina tem um risco adicional mínimo na absorção de gordura e não precisa de uma dieta modificada. Pacientes com hiperoxaluria também tem má absorção de gorduras
  13. Dietas de exclusão não devem ser recomendadas em pacientes com DC porque cada paciente possui sua intolerância individual.
  14. A terapia com probióticos como Lactobacillus reuteri ou VSL#3 pode ser usada para proporcionar remissão de RU moderada.  Probióticos NÃO devem ser usados na fase ativa da DC.
  15. Suplementos nutricionais orais são o primeiro passo para uso na DII, mas geralmente são os de menor suporte adicional à alimentação normal. Se a via oral não for suficiente, deve-se considerar uma terapia de suporte nutricional. A nutrição oral ou enteral (NE) devem ser preferenciais à nutrição parenteral (NPT), a menos que esta seja completamente indicada. A NPT é indicada quando a via oral e via enteral não são suficientes, quando houver obstrução intestinal e não tiver possibilidade de usar nutrição enteral, ou quando houver fístula de alto débito.
  16. Nutrição enteral (NE) é efetiva e recomendada na indução da remissão em crianças e adolescentes com DC ativa.
  17. Para NE tubo nasal ou acesso percutâneo pode ser usado. Em pacientes com DC a NE deve ser usar com bomba de infusão.
  18. NE polimérica, com moderado teor de gordura, sem suplementos específicos pode ser a escolha da terapia nutricional em DII ativa. Fórmulas específicas ou substratos como glutamina, ácidos graxos W3 NÃO são recomendados para NE ou NPT em DII.
  19. Pacientes com DC devem prevenir a desidratação para evitar o tromboembolismo
  20. Pacientes de DC com fístula distal (baixo íleo ou colônica) e baixo débito podem usualmente receber suporte nutricional enteral. Pacientes com fístula proximal e ou com alto débito devem receber suporte nutricional parcial ou exclusivo em NPT.
  21. Pacientes com DC em deprivação nutricional por muitos dias, precisam ter precauções e intervenções para prevenir a síndrome da realimentação, particularmente monitorando fósforo e tiamina.
  22. NE é segura e recomendada como suporte nutricional em pacientes com RU severa. NPT NÃO deve ser usada em RU, a menos que ocorra falência intestinal.
  23. Em caso de cirurgia eletiva, o pré operatório deve seguir o protocolo ERAS, com abreviação de jejum. Em cirurgias de emergência, a terapia nutricional deve iniciar precocemente com NE ou NPT quando o paciente está desnutrido e não responde satisfatoriamente com a ingestão via oral por 07 dias após a cirurgia.
  24. Pacientes que não atingem sua recomendação diária de energia e protéinas, devem ser encorajados a usar suplementos nutricionais via oral no período peri operatório. Se não toleram o suporte via oral, pode usar a NE. Se o paciente está com diagnóstico de desnutrição, a cirurgia da DII deve ser atrasada em 7 a 14 dias, se possível, para uma terapia nutricional intensiva.
  25. A combinação de NE e NPT deve ser considerada, sendo 60% das calorias por via enteral.  A NPT no periodo perioperatório de DII deveriam ser usualmente usadas como suplementar à NE.  NPT deve ser usada sozinha, se a NE não for possível como abcesso, vômitos ou diarreia severos ou por contra indicação como obstrução intestinal e ileal, choque severo ou isquemia intestinal.
  26. Pacientes cirúrgicos de DII que faem precocemente o suporte nutricional apropriado, diminuem o risco de complicações pós operatórias, independentemente da via alimentar de administração.  Pacientes com DC com prolongada insufiência intestinal a NPT é mandatória.
  27. A alimentação via oral ou NE devem ser iniciadas precocemente após a cirurgia de DII. Após proctocolectomia ou colectomia, água e eletrólitos devem ser administrados para assumir a estabilidade hemodinâmica.
  28. Pacientes em remissão da DII devem consultar um nutricionista como parte do cuidado multidisciplinar para prover a terapia nutricional apropriada, prevenir desnutrição e desordens relacionadas à nutrição.
  29. NÃO há uma dieta específica para remissão da DII.
  30. A suplementação com ômega 3 não deve ser usada na remissão de DII.
  31. Dietas ricas em fibras não especificas não são recomendadas oara remissão de DII.
  32. Terapia com probióticos deve ser considerada na remissão da RU, mas não na remissão de DC.
  33. Pacientes colectomizados devem ser tratados com mistura de probióticos VSL#3, se o tratamento com antibióticos falhar. A mistura do probiótico VSL#3 pode ser usada como prevenção primária e secundária de inflamação no puch em pacientes com RU que tem colectomia e anastomose no pouch anal.
  34. Nem NE, nem NPT são recomendadas na remissão de DII. A NE só poderá ser usada se o paciente estiver desnutrido e não atinge sua recomendação dietética diária via oral com aconselhamento nutricional.
  35. Dieta padrão deve ser usada para pacientes com DII em remissão.
  36. Quando mais de 20cm de ileo distal , com ou sem combinação com a válvula ilecocecal for ressecada, a vitamina B12 deve ser administrada em pacientes com DC.
  37. Pacientes com DII tratados com sulfasalazina e metotrexato, devem suplementar vitamina B9 – ácido fólico.
  38. Pacientes com DII que estão grávidas, os níveis de ferro e folato devem ser monitorados regularmente. Se houver deficiência, devem ser suplementados.
  39. O exercício físico deve ser encorajado para pacientes com DII por causa a diminuição natural da massa muscular.
  40. Pacientes obesos com DII, devem ser orientados para perder e manter o peso somente nas fases de remissão da doença, de acordo com os guidelines de obesidade.

Fonte: Bischoff SC et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in Inflammatory Bowel Disease. Clinical Nutrition 39 (2020) 632 – 653.

Doença Inflamatória Intestinal: um desafio nutricional

DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL:


Receber um diagnóstico de doença inflamatória intestinal (DII) é algo que muda para sempre o modo de levar a vida, seja pelo estilo de vida, seja pela sua alimentação.

 

Mas o que é a doença inflamatória intestinal (DII)?

A DII engloba a retocolite ulcerativa (RCU) e a Doença de Crohn (DC). Ambas são graves e exigem cuidados de uma equipe bem afinada para proporcionar a melhor qualidade de vida que o paciente puder ter. A RCU é conhecida por afetar apenas o intestino, já a DC pode afetar todo o trato gastrointestinal desde a boca até o ânus.

 

Realidades mundiais diferentes:
– EUA: é mais frequente pacientes com DC com IMC >30 do que com IMC <18.
– Europa / Asia: prevalência de obesidade é menor e IMC pré operatório é menor que nos EUA.

 

Há um aumento do número de casos de DII no Brasil e Caribe, que se deve muito ao clima, cultura, dieta, infraestrutura de saúde e aspectos sócio econômicos.

 

Os sintomas mais comuns da inflamação abrangem: dores abdominais, mudanças no hábito intestinal como diarreia ou obstipação, dores intensas, sangramentos retais, perda de peso, cansaço, fraqueza, etc.

 

A amamentação, assim como o consumo de uma alimentação rica em fibras com frutas e vegetais variados podem ser medidas preventivas da DII.

 

Será que qualquer pessoa pode ter DII?
Alguns indivíduos podem ser geneticamente mais predispostos a ter, principalmente os que usam medicamentos contínuos que podem modificar a imunidade e a microbiota intestinal. A doença pode acometer crianças, jovens e adultos. O diagnóstico precoce é decisivo para melhorar o estado nutricional e a qualidade de vida do paciente.

 

Existem dois momentos distintos da doença: a remissão, ou seja, quando há o controle da doença com medicamentos específicos onde os sintomas podem cessar e outro em que há a atividade da doença com sintomas importantes e debilitantes como sangramento retal, diarreia, emagrecimento, dor abdominal importante.

 

Quando ocorrem estas manifestações inflamatórias é necessário um cuidado maior com a alimentação, por vezes uso de suplementos via oral ou se não for suficiente para a sua nutrição, o uso de outras vias como enteral ou parenteral são necessárias. Alguns pacientes podem necessitar de cirurgias de repetição sempre que a inflamação estiver grave e de difícil controle pelo tratamento clínico. Podem ocorrer com frequencia deficiências nutricionais importantes como anemias por falta de ferro, ácido fólico e vitamina B12. Por isso as avaliações médicas são fundamentais e devem ocorrer periodicamente.

 

A desnutrição pode ocorrer tanto em RCU como em DC e piorar a recuperação após a cirurgia.

 

A alimentação na DII deve ser individualizada. Os pacientes são orientados a fazer um registro alimentar diário e a identificar os alimentos que possam desencadear dor ou diarreia e assim excluí-los do seu dia a dia. A orientação básica é se DOEU, NÃO COMA! As pessoas são diferentes e a alimentação também se comporta de maneira singular, mesmo entre membros da mesma família. A orientação nutricional básica na doença em atividade quando há diarreia grave, é de alimentos pobres em resíduos, para dar o mínimo de trabalho no trato gastrointestinal, preferência por carnes brancas pobres em gordura, uso de temperos como cúrcuma, frutas e legumes cozidos sem as fibras, água em quantidade suficiente 35ml/Kg de peso por dia. Evitar bebidas alcoólicas, refrigerantes e outras bebidas gaseificadas. Ficar de olho no peso e no aspecto das fezes. Qualquer alteração ou sangramento deve ser avisado ao médico.

 

Referências Bibliográficas:

1. ECCO Topical Review. Journal of Crohn’s and Colitis, 2020, 431–444.
2. ESPEN S.C. Bischoff et al. / Clinical Nutrition 39 (2020) 632 – 653.
3. Kotze PG et al. Clin Gastroent Hepat 2020 Feb;18 (2): 304-312.