COMO A NUTRIÇÃO CONTRIBUI NA GESTAÇÃO APÓS A CIRURGIA BARIÁTRICA

 

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MARIA PAULA CARLIN CAMBI

A obesidade pode ser um fator crucial para a fertilidade feminina. Muitas pacientes obesas procuram a cirurgia bariátrica com a intenção primeira de conceber. Uma importante causa desta infertilidade é a síndrome dos ovários policísticos que acomete de 6 a 10% das mulheres obesas. Com a cirurgia há uma perda ponderal importante e um efeito positivo na remissão das comorbidades, o que facilita o processo reprodutivo.1

A gestação após a cirurgia bariátrica é segura? Sim. Mas muitos estudos trazem confirmações importantes no que se refere à necessidade de suplementação específica e acompanhamento nutricional periódico para prevenir possíveis complicações tanto para a mãe como para o bebê.

Um estudo francês comparou gestantes com bypass gástrico (RYGB) com mulheres eutróficas e concluiu que as primeiras podem gerar filhos com 23% de peso a menos devido basicamente a diminuição de ingestão calórica diária. Observaram o cordão umbilical de ambos os grupos e verificaram que no grupo de mães com RYGB houve uma diminuição de cálcio, zinco, vitamina A, leptina e IGF1. E um aumento de magnésio, vitamina E, D e B12. Essa mudança foi significativa em magnésio, vitamina E, D e B12. A diminuição de leptina e IGF1 pode ter sido devido à diminuição do anabolismo. As mulheres operadas apresentaram uma taxa maior de parto cesariana e um menor tempo de amamentação.2

Uma metanálise demonstrou que as mulheres gestantes que se submeteram ao RYGB tiveram menor incidência de diabetes gestacional e eclampsia, porém um maior número de bebês pequenos para a idade gestacional (PIG), justificado pela diminuição da ingestão calórica diária e má absorção de nutrientes específicos. Não houve diferenças em casos de alterações em tubo neural entre gestantes bariátricas e não bariátricas.3

A gestação após o RYGB é segura e bem tolerada desde que bem monitorada por uma equipe multidisciplinar atenta para evitar complicações nutricionais como a deficiência de micronutrientes.4

Um estudo controlado com 119 participantes, sendo 55 com Sleeve, 34 com banda gástrica e 30 com RYGB, demonstrou que 49,6% dos pacientes têm hipoglicemia com testes de tolerência à glicose que são feitos de rotina próxima à vigésima semana de gestação. Destes 49,6%, 54,5% foram pacientes com RYGB. Estes pacientes com hipoglicemia, demonstraram diminuição na taxa de diabetes gestacional, porém ainda altas taxas de bebês pequenos para a idade gestacional (PIG)5

A suplementação pré natal, com oferta ótima de ferro e ácido fólico deve ser ofertada para a futura mãe. O monitoramento mensal de exames laboratoriais e do peso materno e crescimento intrauterino é essencial para prevenir o nascimento de bebês PIG.6

A gestação após o RYGB só é encorajada após um ano e meio a dois anos para prevenir complicações em mãe e filho.7

Um estudo realizado em crianças nascidas de mães operadas com RYGB investigou 13 meninos e meninas, sendo 61,6% de meninas, sendo 46,1% eutróficos e 30,8% obesos. Dentre os obesos, menos da metade foi amamentado pela mãe. O grupo apresentou deficiência de ferro e vitamina A, baixa ingestão de lipídios em 30,7% e inadequada ingestão de carboidratos em 7,6%. A ingestão de fibras estava fora da recomendação dietética diária para a faixa etária. As crianças nasceram PIG e os autores concordam que a amamentação pode prevenir a obesidade na infância e adolescência.8

A gestação após a cirurgia bariátrica deve ser seguida de um acompanhamento multidisciplinar atento, com suplementos nutricionais específicos (polivitamínico rico em ferro), ferro alimentar e adicional até completar 100mg por dia, ácido fólico alimentar e suplementar desde a pré concepção, cálcio alimentar e até 1500mg por dia (preferencialmente citrato de cálcio), vitamina B12 alimentar e suplementar (1000mcg por dia via oral ou mensalmente 5000mcg intramuscular.9,10,11

 

Referências Bibliográficas

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  2. Geraldine Gascoin, M.D., Ph.D.a , Maxime Gerard, M.D.a , Agnès Sallé, M.D., Ph.D.b,c , Guillaume Becouarn, M.D.c,d , Stephanie Rouleau, M.D.a, Loïc Sentilhes, M.D., Ph.D.e , Régis Coutant, M.D.a,c, Risk of low birth weight and micronutrient deficiencies in neonates from mothers after gastric bypass: a case control study. Surgery for Obesity and Related Diseases 13 (2017) 1384–1391
3. Kwong WTomlinson GFeig DS. Maternal and Neonatal Outcomes After Bariatric Surgery; A Systematic Review and Meta-Analysis: Do the benefits outweigh the risks? Am J Obstet Gynecol. 2018 Feb 15.

4. Costa MM, Belo S, Souteiro P, Neves JS, Magalhães D, Silva RB, Oliveira SC, Freitas P, Varela A, Queirós J, Carvalho D. Pregnancy after bariatric surgery: Maternal and fetal outcomes of 39 pregnancies and a literature review. J Obstet Gynaecol Res. 2018 Jan 18.

5. Rottenstreich A, Elazary R, Ezra Y, Kleinstern G, Beglaibter N, Elchalal U. Hypoglycemia during oral glucose tolerance test among post-bariatric surgery pregnant patients: incidence and perinatal significance. Surg Obes Relat Dis. 2017 Dec 8.

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7. Luyssen J, Jans G, Bogaerts A, Ceulemans D, Matthys C, Van der Schueren B, Lannoo M, Verhaeghe J, Lemmens L, Lannoo L, Shawe J, Devlieger R. Contraception, Menstruation, and Sexuality after Bariatric Surgery: a Prospective Cohort Study. Obes Surg. 2017 Dec 2.

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  1. AILLS L, BLANKENSHIP J, BUFFINGTON C, et al. ASBMS Allied Health Nutritional Guidelines for the Surgical Weight Loss Patient. Surg Obes Relat Dis. 2008 sep – oct; 4 (5 suppl): S 73 – 108.
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