As modificações alimentares ocorridas desde os primatas vegetarianos até o homem, trouxeram alguns reflexos importantes na fisiologia do aparelho digestório.  A mudança no estilo de vida do homem moderno resultou numa ingestão alimentar diária menor em fibras, que são nutrientes pertencentes ao grupo dos carboidratos.

A alimentação diária em grandes metrópoles, em que o tempo para as refeições é curto e naturalmente a grande maioria das pessoas opta por fazê-las através de lanches rápidos, com baixos teores de fibras alimentares, além do uso indiscriminado de medicamentos, associado com vida sedentária, trouxeram uma alteração funcional do tubo digestório e com isso a obstipação.

O termo “fibra alimentar” foi criado por Hugh Trowell para designar “a porção dos alimentos, constituída por polissacarídeos de plantas e pela lignina, que resistem à hidrólise pelas enzimas do aparelho digestório humano e que não sofrem processo de digestão como celulose, hemicelulose, pectinas, gomas, mucilagens e lignina

As fibras e uma quantidade variável de amido não digerido são fermentados nos cólons pelas bactérias colônicas, produzindo os ácidos graxos de cadeia curta ou voláteis, gases metano, hidrogênio, dióxido de carbono e água. Esta fermentação também intensifica o crescimento das células bacterianas, que combinado com resíduos não fermentados, sais e água, produzem aumento no bolo fecal e proporcionam maior peso das fezes. (Jenkins, et al, 1986).

O consumo adequado de fibras alimentares também diminuem o risco de câncer de cólon. Isto pode ocorrer principalmente por diluição do conteúdo colônico; adsorção de elementos potencialmente carcinogênico; diminuição do tempo de trânsito intestinal e eliminação de substâncias carcinogênicas; alteração no metabolismo dos ácidos biliares, com menor produção de elementos carcinogênicos; ação local dos ácidos graxos voláteis ou de cadeia curta, em especial, butirato, com efeito bactericida e anti-carcinogênico.

Os ácidos graxos são produtos finais da degradação dos polissacarídeos pelas bactérias colônicas entre eles estão os ânions acetato, butirato e propionato que se caracterizam por uma ação local sobre o trofismo dos colonócitos, ação bactericida e anti-carcinogênica e uma ação sistêmica atuando sobre o metabolismo glicídico e lipídico hepático, sobre as secreções pancreática, exócrina, onde o propionato parece ser o mais envolvido neste processo.

As fibras alimentares, não sendo digeridas pelas enzimas digestivas do trato gastrointestinal, atingem os cólons, são fermentadas pelas bactérias colônicas produzindo água, gás carbônico e gás metano, resultando não só no aumento da massa fecal como também conferindo maciez às fezes, o que facilitaria sua eliminação.

As causas principais da obstipação intestinal estão intimamente ligadas aos hábitos alimentares já bastante arraigados da população no que se refere à ingestão insatisfatória de água, a carência de frutas cruas e vegetais folhosos, além do sedentarismo cada mais mais evidente. Esses hábitos de vida corroboram para um assincronismo nos movimentos peristálticos evidenciado em estudos da fisiologia da motilidade intestinal. As fibras são nutrientes considerados atualmente como funcionais, onde serão associados a “claims” de saúde e podem proporcionar uma ação fisiológica importante para esta correção.  Na categoria de prebióticos, aumentam o número de bifidobactérias, favorecem a biodisponibilidade de alguns minerais, atuam favoravelmente no metabolismo lipídico e glicídico, diminuição do risco de infecções intestinais, doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, osteoporose e câncer.

A importância de uma alimentação qualitativamente e quantitativamente adequada tornou-se vital para a saúde. Idealmente preconiza-se 1,5 a 2,0 litros de água por dia, assim como uma ingestão de fibras de 25 a 35g por dia para adultos ou o correspondente a 10g de fibras para cada 1000Kcal. Para crianças maiores de 02 anos de idade, a American Dietetic Association recomenda: 05g de fibras por dia mais a idade em anos), resultando entre 07 a 20g/dia. Para idosos indica-se 10 a 13g para cada 1000Kcal ingeridas.

As fibras alimentares encontram-se principalmente nas paredes das células de vegetais e são divididas em solúveis e insolúveis.

As fibras solúveis ou associadas com o conteúdo celular das plantas, têm efeito metabólico no trato gastrointestinal retardando o esvaziamento gástrico e o tempo de trânsito intestinal, além de diminuirem a absorção de glicose e colesterol. Exemplos: farelo de aveia, cenoura cozida e goma guar que alteram a composição da flora intestinal e o metabolismo através da produção de ácidos graxos de cadeia curta.

As fibras insolúveis, ou procedentes das estruturas da parede celular apresentam efeito mecânico no trato gastrointestinal são pouco fermentáveis, aumentam o bolo fecal, aceleram o tempo de trânsito intestinal pela absorção de água. Exemplos: farelo de trigo, leguminosas e folhosos.

 As fibras são substâncias capazes de reter água na sua estrutura, aumentando o volume fecal, diminuindo sua consistência e facilitando a evacuação. Além de amolecerem as fezes pela captação da água, estimulam a motilidade pela distensão que provocam na parede do cólon, com o aumento de volume do seu conteúdo. Como trata-se de um estímulo fisiológico, podem ser usados mesmo na presença de uma mucosa intestinal inflamada.

As fibras solúveis incorporam água rapidamente e são facilmente decompostas no intestino grosso. Entre 70 a 90% da quantidade ingerida é intensamente decomposta pelas bactérias do cólon. As fibras insolúveis têm menor capacidade de incorporação de água que as fibras solúveis e são difíceis de serem degradadas pelas bactérias sendo por isso eliminadas praticamente intactas. Atuam nas porções distais por serem pouco digeridas no cólon, mantendo o volume líquido até a evacuação. No intestino grosso as fibras são responsáveis pelo aumento do bolo fecal e diminuição da sua consistência; diminuem o tempo de trânsito intestinal e diminuem a pressão no interior do cólon. O início de ação é de 12 a 24horas.

As fibras possuem efeitos importantes em distúrbios metabólicos como a diabetes diminuindo a glicose sanguínea, a glicosúria, os requerimentos de energia e aumentando a sensibilidade à insulina tendo como mecanismos de ação o retardo no esvazimento gástrico, a formação de gel com a pectina e goma guar no intestino, que impede a absorção dos carboidratos e alterando a função hormonal do glucagon. Na obesidade as fibras atuam aumentando a saciedade, diminuindo a biodisponibilidade de nutrientes e a densidade calórica, tendo como mecanismo de ação o aumento da gordura fecal, inibindo a absorção de carboidratos, diminuindo o trânsito alimentar e alterando a função dos hormônios intestinais.

A inibição da circulação de ácidos biliares e redução dos níveis de colesterol e triglicerídeos são alguns dos efeitos da fibra nas doenças cardiovasculares. Este fato deve-se a alterações na flora bacteriana, resultando em mudança na atividade metabólica e também alterações nas enzimas pancreáticas e intestinais.

efeitofibras

“O uso exacerbado de fibras podem influenciar negativamente na absorção de minerais, porém o uso de oligossacárides não digeríveis tem sido associado ao aumento na biodisponibilidade de minerais. Pode-se prevenir anemia ferropriva e osteoporose, utilizando determinado tipo de fibra que aumenta a absorção de minerais como o ferro, cálcio, magnésio, zinco. A maior disponibilidade do zinco favorece a síntese protéica e a maior conversão da vitamina A para sua forma ativa. O principal mecanismo envolvido é o aumento na acidez nos cólons decorrente de maior fermentação microbiana local. Esta variação para um pH mais ácido aumenta a solubilidade destes minerais no ceco e nos cólons o que conduz a maiores índices de aproveitamento absortivo destes minerais. Quanto mais o prebiótico conduzir à fermentação, mais elevará a acidez colônica e maior será a influência positiva sobre a absorção dos minerais. É um processo dose-dependente”, como revela BAXTER, Y., 2002.

Em nutrição enteral as fibras podem favorecer a diminuição da obstipação em pacientes crônicos e da incidência de diarréia e promover trofismo intestinal, melhorando a adaptação intestinal em doentes com síndrome do intestino curto, que conservam os cólons. Contudo deve-se utilizar fibras em NE de forma cautelosa já que pode ocorrer redução nas taxas de absorção de fósforo, magnésio e zinco utilizando 12,4g de polissacarídeos da soja. Além disso há o risco de obstrução da sonda, distensão abdominal e flatulência.

 

CONTEÚDO DE FIBRAS NOS ALIMENTOS (g/100g de alimentos)

ALIMENTO FIBRA SOLÚVEL FIBRA INSOLÚVEL FIBRA DIETÉTICA
FRUTAS
Maçã com casca 0,2 1,8 2
Maçã descascada 0,2 1,3 1,5
Pêssego em calda 0,5 1,3 1,8
Banana 0,5 1,2 1,7
Uvas negras 0,3 2,4 2,7
Uvas verdes 0,1 0,9 1
Nectarina com casca 0,4 0,8 1,2
Laranja 0,3 1,4 1,7
Pêra em calda light 0,3 1,4 1,7
Pêra com casca 0,4 2,4 2,8
Abacaxi em calda dietético 0,1 0,6 0,7
Ameixa fresca com casca 0,4 0,8 1,2
Morango 0,4 1,4 1,8
Tangerina 0,4 1,4 1,8
Melancia 0,1 0,3 0,4
VEGETAIS
Aspargos inteiros 0,4 1,2 1,6
Broto de feijão 0,1 1,1 1,2
Vagens inteiras 0,5 1,4 1,9
Brócolis crus 0,3 3 3,3
Brócolis cozido 0,4 3,1 3,5
Couve de bruxelas cozida 0,5 3,6 4,1
Couve crua 0,1 1,6 1,7
Cenoura crua 0,2 2,3 2,5
Couve-flor crua 0,3 2 2,3
Couve-flor cozida 0,3 1,8 2,1
Aipo cru 0,1 1,7 1.8
Aipo cozido 0,1 1,7 1,8
Milho inteiro congelado 0,1 2 2,1
Milho inteiro enlatado 0,1 1,8 1,9
Pepino descascado 0,1 0,5 0,6
Pepino com casca 0,1 0,8 0,9

CEREAIS

Cereais cornflakes 0,5 3,8 4,3
Cereais com mel (Kelogg’s) 0,6 1,7 2,3
Cereais Krispies (Kelogg’s) 0,5 1,4 1,9
Cereais Special K (Kelogg’s) 0,2 2,5 2,7
Pão de milho 0,2 2,8 3
Farinha branca de trigo 1 1,9 2,9
Macarrão cozido 0,3 1,7 2
Talharim com ovo cozido 0,3 1,4 1,7
Arroz branco cozido 0,1 0,3 0,4
Espaguete cozido 0,4 1,1 1,5
CEREAIS RICOS EM FIBRAS
Cereais Bran Flakes 2 17,5 19,5
Cereais All Bran 2,1 28 30,1
Cereais de cutícula de aveia crua 6,5 10,5 17
Gérmen de trigo 1,1 12,9 14
LEGUMES
Vagens Enlatadas 0,4 3,8 4,2
Ervilhas verdes enlatadas 0,4 2,9 3,3
Ervilhas verdes congeladas 0,3 3,2 3,5
FRUTAS SECAS
Amêndoas com casca 0,2 8,6 8,8
Amendoins 0,2 6,6 6,8
Nozes 0,1 3,7 3,8
DIVERSOS
Abacate 1,3 2,6 3,9
Azeitonas verdes 0,2 1,8 2
Azeitonas pretas 0,1 2,1 2,2
Passas 0,6 3,6 4,2
Fonte: MARLET, J.A Content and composition of dietary fiber in 117 (frequently consumed foods. J. Am. Diet. Assoc. 1992; 92 (2): 175-186.

 

CONTEÚDO DE FIBRAS NOS ALIMENTOS EM PORÇÕES

GRÃOS
PORÇÃO GRAMAS DE FIBRA
Lentilha 01 xícara de chá 7,9
Feijão cozido 01 xícara de chá 7,5
Amendoim ½ xícara de chá 4,1
Soja cozida ½ xícara de chá 3,9
Ervilha enlatada ½ xícara de chá 3,5
Germe de trigo 03 colheres de sopa 2,9
Farelo de aveia 03 colheres de sopa 2,7
Milho 01 espiga média 2,3
Farelo de trigo 03 colheres de sopa 2,2
Aveia em flocos 03 colheres de sopa 2,1
Farinha de aveia 03 colheres de sopa 2,1
Arroz integral cozido 05 colheres de sopa 1,6
Biscoito de trigo integral 06 unidades 1,6
Macarrão cozido 01 xícara de chá 1,2
Pão de centeio 01 fatia 1,4
Pão de trigo integral 01 fatia 1,3
Arroz branco cozido 05 colheres de sopa 0,5
CEREAL INSTANTÂNEO PORÇÃO GRAMAS DE FIBRA
All Bran ½ xícara de chá 9,0
Corn Flakes 01 xícara de chá 3,0
Granola ½ xícara de chá 2,0
Müsli ½ xícara de chá 0,5 – 1,0

 

FRUTAS PORÇÃO GRAMAS DE FIBRA
Pêra 01 média 4,0
Figo seco 01 médio 3,7
Côco ralado seco ½ xícara 3,3
Maçã 01 média 3,0
Abacate ½ médio 3,0
Kiwi 01 grande 3,0
Morango 01 xícara de chá 2,7
Banana 01 média 2,6
Ameixa seca 02 unidades 2,4
Pêssego com casca 01 médio 2,3
Laranja 01 média 2,2
Manga 01 média 2,2
Ameixa fresca 03 pequenas 1,8
Mamão 01 fatia média 1,4
Uva passa 02 colheres de sopa 1,3
Melão 01 fatia média 1,1
VEGETAIS
PORÇÃO GRAMAS DE FIBRAS
Batata assada 01 média 3,5
Couve de bruxelas ½ xícara de chá 3,2
Brócoli cozido ½ xícara de chá 2,7
Batata doce assada 01 média 2,1
Berinjela ½ xícara de chá 2,0
Cenoura crua 01 média 2,0
Espinafre cozido ½ xícara de chá 2,0
Couve-flor cozida ½ xícara de chá 1,9
Abóbora ½ xícara de chá 1,0

Fonte: Martins, C. Folder Nutroclínica

 

SUPLEMENTOS DE FIBRAS ALIMENTARES

PRODUTO
LABORATÓRIO SOLÚVEL INSOLÚVEL TIPO DE FIBRA
Resource Benefiberâ
Novartis 80% 20% Goma guar
Profibraâ
Support 6% 94% Polissacarídeo da soja

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. ANDRE, S.B. Constipação Intestinal: como diagnosticar e tratar, Rev Bras Med Vol. 57, dez, 2000.
  2. BAXTER, Y. C. Artigos do Laboratório Novartis, 2002.
  3. BORGES, V.C. Oligossacarídeos x Fibras Alimentares Rev Bras Nutr Clin 12:161-164, 1997.
  4. MARLET, J.A Content and composition of dietary fiber in 117 frequently consumed foods. J Am Diet Assoc 1992; 92 (2): 175-186.
  5. MARQUÉZ, L.R. Propriedades de la fibra dietetica. In: La fibra terapéutica. Lab. Madaus. Ed. 1998, 25-43.
  6. WAITZBERG, D. Nutrição Oral, Enteral e Parenteral na Prática Clínica, 3ª Atheneu, São Paulo, 2001.